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Esboços para o levantamento da agrodiversidade típica de Santana.
O exemplo do trigo e do milho (parte I)

Miguel Carvalho foto1 Agrodiversidade

A agrodiversidade é um conceito proposto por Doolittle (1984) para definir a diversidade biofísica e biológica dos nossos sistemas de produção de alimento e outros bens e que assegura a nossa alimentação e segurança alimentar. A agrodiversidade é constituída por cinco elementos, ilustrando a complexidade dos processos que ocorrem nestes sistemas e que envolvem a atividade e produção agrícola. Estes elementos são:

i) agrodiversidade biofísica, constituída pelos agrossistemas (explorações agrícolas ou poios) e pelo conjunto das suas interações bióticas (natureza biológica) e abióticas (de natureza não biológica);

ii) agrodiversidade biológica restrita, formada pelas espécies agrícolas e pecuárias, que contribuem para a produtividade do sistema e incluem a diversidade específica e intraespecífica;

iii) agrodiversidade biológica formada pelas restantes espécies “não produtivas” presentes no agrossistema e que interferem de forma distinta com o processo de produção agrícola (auxiliares, pragas, outros seres vivos);

iv) e agrodiversidade etnográfica, constituída pelos conhecimentos, tradições e práticas agrícolas associados às culturas e aos recursos genéticos, e que determinam a sua especificidade e qualidade.

O último elemento da agrodiversidade inclui as espécies silvestres aparentadas ou ancestrais (antepassados) das atuais culturas e espécies agrícolas e pode não estar sempre presente nos agrossistemas.

A agrodiversidade do concelho de Santana apresenta especificidades que transmitem características únicas às formas cultivadas (variedades locais) presentes nos agrossistemas e aos alimentos e bens por elas produzidos. As características referidas são a aclimatação das espécies e a boa adaptação às condições locais, a variedade dos recursos genéticos, as práticas tradicionais de cultivo, o valor agronómico e a qualidade nutricional e organolética transmitidas pelas condições agroecológicas (“terroir”) dos poios.

Caracterização agroecológica do concelho

O concelho de Santana, na costa norte da Madeira e com uma área de 95,56 km2, é delimitado a sul pelo maciço montanhoso central. Neste maciço estão localizados os picos mais altos da Madeira: Ruivo (1.861 m); Torrinhas (1.794 m); Canário (1.596 m); e Poiso (1.412 m). A norte é delimitado pelo oceano Atlântico, sendo grande parte do litoral formado por arribas altas e escarpadas. A leste, o território é delimitado pela ribeira do Castelejo e a oeste pela fajã do Arco de São Jorge e pelo maciço central. O território do concelho tem um relevo acentuado, com um declive médio de 56%.

Diversos fatores (clima, orografia, altitude, exposição e proximidade do mar) definem as condições agroecológicas em relação às quais a agrodiversidade típica se encontra aclimatada. Os elementos climáticos destas condições incluem a temperatura, com uma amplitude térmica que pode variar entre os 4ºC (inverno) e os 23ºC (verão), com média anual de 15,9ºC. A temperatura média anual mais baixa (10,2ºC) regista-se em São Roque do Faial e a mais elevada (21,9ºC) no Arco de São Jorge. A precipitação acumulada anual atinge os 1 242,12 mm, sendo a mais alta de 1 441,31 mm, registada em São Roque do Faial, e a mais baixa de 1 085,96 mm em Santana. A precipitação aparece associada a uma evapotranspiração anual de 748,79 mm. A componente pedológica (solo) das condições agroecológicas caracteriza-se pela diversidade de complexos do solo, ocorrendo no território seis complexos principais e 11 tipos distintos de solo. Os principais complexos de solos das áreas agrícolas do concelho são os andosolos (maior área), terrenos rochosos, cambiosolos e faeozemas. Estes solos são ácidos, ricos em matéria orgânica e pobres em alguns nutrientes. A grande maioria dos terrenos com aptidão e/ou uso agrícola localizam-se numa faixa do território entre os 200 e 600 ou 700 m.

 

Estas características fazem com que o concelho tenha uma agricultura de montanha, muito condicionada pelas condições climáticas, mas, por outro lado, sujeita a profundas alterações, em resultado das alterações climáticas em curso. Esta agricultura é propícia para o cultivo e produção de espécies agrícolas ou frutícolas predominantemente temperadas. No entanto, em determinadas áreas ocorrem condições mais propícias para o cultivo de espécies subtropicais, como a bananeira, a cana-sacarina, a batata-doce, o inhame ou a anoneira.

Breve esboço do levantamento da agrodiversidade biológica e organizacional

A agrodiversidade é fundamental para a produção de alimento e de outros bens de primeira necessidade, sendo a base da economia das comunidades locais e o garante da segurança alimentar. Na Região, a agrodiversidade foi fundamental para o povoamento, fixação das populações e construção e desenvolvimento das bases da sua economia. Na Madeira, a agrodiversidade tem ainda um papel preponderante na paisagem, no ordenamento do território e na fixação das populações. Esta resulta da atividade agrícola (agricultura) e depende para a sua manutenção dos agricultores, dos seus conhecimentos, tradições e práticas. Em muitas regiões e comunidades europeias, e não só, a agrodiversidade local (típica) é alvo de medidas de proteção e de ações que visam a sua valorização económica, pois fomentam a diversificação da economia local, contando com o apoio dos setores secundário (transformação) e terciário (serviços, etc.). Um exemplo deste tipo de ações é dado pela utilização de batata-doce de variedades locais na produção de farinha composta. Este produto de grande qualidade é produzido e comercializado pela Insular de Moinhos e pode ser utilizado pelos consumidores e panificadoras na produção de pão, obedecendo aos requisitos da DOP do pão de batata.

A agrodiversidade na Madeira tem 600 anos (Pinheiro de Carvalho et al., 2019). A sua criação teve início com o povoamento e no território do concelho remontará a 1550 (data de formação de Santana). Esta foi sendo enriquecida com a introdução de espécies agrícolas e pecuárias utilizadas pelos agricultores locais. O número exato de espécies que foram aclimatadas, cultivadas e exploradas no território não é totalmente conhecido. Um inventário preliminar e não exaustivo desta agrodiversidade permite contabilizar a presença ou cultivo no território de Santana de 40 culturas, as suas espécies e recursos genéticos, e 10 espécies de animais de pecuária, as suas raças e recursos genéticos. Este inventário foi realizado através da consulta de Pio (1974), Pereira (1939), Silva e Meneses (1908) e do sistema de documentação e informação do Banco de Germoplasma ISOPlexis. A inventariação da agrodiversidade pelo ISOPlexis permitiu a inventariação e amostragem de 391 acessos de germoplasma (cultivos).

Vinte e uma culturas e suas espécies fazem parte da agrodiversidade mais antiga e foram provavelmente introduzidas no início do povoamento. Entre estas podemos enumerar o trigo, centeio, cevada, couve, cebola, chícharo, linho, inhame, cana-sacarina, pereiro, etc. Doze culturas e espécies foram introduzidas após a descoberta do Brasil e abertura do caminho marítimo para Índia. Estas incluem, entre outras, a batata-doce, feijão, feijoca, tomateiro e ameixieira, contribuindo as primeiras para uma importante alteração dos hábitos alimentares das populações rurais. As restantes culturas (7) e espécies associadas provavelmente terão sido introduzidas após o início de século XIX, incluindo-se entre estas a cultura do milho, que é utilizada e deu origem a importantes tradições gastronómicas madeirenses.

De acordo com Pio (1974), em 1956 existiam no concelho 2 553 explorações agrícolas, as quais produziam batata (2 483), batata-doce (2 223), hortaliça (55), fava (1 763), feijão (1 763), inhame (989), milho (1 838), vime (517), vinha (1 537), tremoço (91), trigo (2 058), bananal (77), cana-sacarina (294) e árvores de fruto (1 497). Esta estatística demonstra a importância histórica das culturas do trigo e milho no concelho de Santana. No entanto, a consulta do cadastro atual do uso e ocupação do solo no território de Santana (figura 1) e da estatística agrícola da DRAM demonstra que o número de explorações diminuiu para 1 767 e ambas as culturas decaíram desde essa data, não aparecendo referenciadas em nenhuma destas fontes. Apesar disso, a Região continua a produzir 3 382 t/ano de milho para maçaroca (DREM, 2016).

Obs.: Este artigo foi publicado inicialmente na revista Bailar n.º 4, publicação do Festival Regional de Folclore 2019

(continua no próximo número do DICA)

Miguel. A. A. Pinheiro de Carvalho (texto e foto)
Universidade da Madeira

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