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Breve visita ao mundo dos nemátodes

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 Foto 1 – Raizes de tomateiro atacadas por nemátodes do Género Meloidogyne

Os nemátodes são, sem a mínima dúvida, criaturas extraordinárias.

Embora, os mais conhecidos sejam as “lombrigas”, os nemátodes distribuem-se por todo o planeta, em habitats tão diversos como os oceanos e massas de água doce, pântanos, solos até mais de 3.000 metros de profundidade e no interior do organismo de animais aquáticos e terrestres e ainda de plantas.

Com uma variabilidade tão rica como os seus ecossistemas é também a sua dimensão. O menor nemátode conhecido é do género Paratylenchus com um comprimento em adulto de 0,2 mm, enquanto o maior nemátode é um parasita do cachalote, o Placentonema gigantíssima, que, embora com um diâmetro aproximado de apenas 3 cm, mede em média 8 a 9 metros de comprimento, mas pode chegar aos 13 metros. A sua forma, embora no geral seja a de vermes alongados e finos, também apresenta variações, especialmente nas espécies com dimorfismo sexual, em que as fêmeas maturas podem ter a forma de gota ou quase esférica.

No total, estão descritas cerca de 80.000 espécies de nemátodes, mas os especialistas estimam que possa haver perto de 1.000.000 de espécies.

A alimentação dos nemátodes é tão variável como o habitat de cada espécie e a respetiva forma de vida. Entre os nemátodes de vida livre existem predadores, que se alimentam de invertebrados minúsculos, incluindo outros nemátodes, existem micófagos, bacteriófagos, omnívoros, saprófitos. Já os nemátodes parasitas alimentam-se dos nutrientes que absorvem de animais vertebrados e invertebrados ou de plantas. Convém salientar que alguns nemátodes podem ser encontrados em animais, normalmente invertebrados, ou em plantas, mas não são considerados parasitas dessas espécies, já que as usam apenas como “transporte” (foretismo) ou “abrigo”, como é o caso de algumas espécies dos géneros Aphelenchoides e Laimaphelenchus, entre outros.

Entre os nemátodes parasitas, um número significativo de espécies está descrito como sendo parasita de plantas, os chamados nemátodes fitoparasitas. Estes nemátodes diferenciam-se morfologicamente dos restantes por possuírem na zona bucal um estilete fino e retrátil, que pode ter dimensões variáveis, com o qual perfuram e sugam os nutrientes das plantas.

Os nemátodes fitoparasitas podem exercer o seu parasitismo de formas diferentes. Em algumas espécies, como nas do género Meloidogyne, as fêmeas não maturas introduzem-se nas raízes das plantas, alojando-se no seu interior, onde se fixam, amadurecem e desenvolvem os ovos até que estes eclodam e os juvenis saem para o exterior. São os chamados endoparasitas sedentários. Outras espécies, como as do género Pratylenchus, entram nas raízes das plantas e movimentam-se ao longo destas, podendo, eventualmente, regressar ao solo. Denominam-se, por isso, endoparasitas migradores. Algumas espécies de Aphelenchoides, por exemplo, são endoparasitas migradores nas partes aéreas de algumas plantas, causando danos extremos nas folhas e caules tenros. Outros nemátodes, como os do género Globodera são considerados semi-endoparasitas porque apenas introduzem a cabeça na raiz, onde se fixam e alimentam, ficando o resto do corpo no exterior da planta. Já os ectoparasitas, que são a maior parte dos nemátodes fitoparasitas, vivem livremente no solo e apenas introduzem o estilete na planta para se alimentarem quando necessitam.

 
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 Foto 2 – Fêmea de Radopholus similis

Muitas espécies de nemátodes possuem hospedeiros preferenciais ou mesmo específicos, é o caso de algumas espécies do género Globodera que atacam a batateira (Solanum tuberosum) e do Radophulus similis (Foto 2) que tem preferência por plantas das Ordens Zingiberales, como bananeira, estrelícia e gengibre e Alismatales, como o filodendro e o antúrio. Por sua vez, os endoparasitas Meloidogyne não são muito caprichosos com a escolha de hospedeiro e atacam um vasto leque de plantas, desde árvores fruteiras a hortícolas herbáceas, passando por plantas ornamentais ou ruderais, deformando e destruindo-lhes as raízes e, consequentemente, interferindo drasticamente na absorção de nutrientes por parte da planta (Foto 1).  

No entanto, a ação prejudicial dos nemátodes fitoparasitas não se cinge apenas à espoliação resultante da sucção de nutrientes, mas também ao trauma mecânico e a um efeito tóxico. Ao produzir uma ferida na planta, o nemátode deixa aberta uma entrada para um sem número de agentes fitopatogénicos, além de que movimentação dos nemátodes endoparasitas no interior das raízes destrói a funcionalidade dos tecidos vegetais, originando necroses e apodrecimento. Algumas espécies de nemátodes são mesmo responsáveis pela transmissão de vírus específicos que acabam debilitando e matando a planta; enquanto outras espécies, ao se alimentarem, injetam enzimas e outros compostos químicos que têm um efeito tóxicos ou de “digestão” dos tecidos vegetais.

Felizmente, embora o número de espécies fitoparasitas seja relativamente elevado, a maioria delas não causa danos de maior e consegue passar despercebida.

Algumas espécies, contudo, têm uma enorme importância na agricultura já que podem causar prejuízos enormes e mesmo destruir por completo uma produção, dependendo do nível de infestação.  Entre os nemátodes mais importantes ao nível dos prejuízos económicos que podem causam estão Meloidogyne spp., Pratylenchus spp., Radophulus similis, Ditylenchus dipsaci, Rotylenchulus reniformis, Xiphinema index, Aphelenchoides besseyi e Bursaphelenchus xylophilus.

Esta última espécie é a responsável pela morte massiva de pinheiro, que tem ocorrido em várias partes do mundo e, nos últimos anos, também na Madeira. No Japão, esta praga ameaça destruir a paradisíaca floresta da ilha Yakushima, que é Património Mundial da Humanidade desde 1993.

Fátima Rocha
Direção de Serviços de Laboratórios e Investigação Agroalimentar
Direção Regional de Agricultura

Fotografias de Scot Nelson

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