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Sidra, o néctar dourado (parte 1)

sidra DICAs 1Devemos dizer que a massa das maçãs exposta ao contacto com o ar durante as 8 ou 12 horas que tinha de esperar para ser espremida, tomava uma côr castanho escuro que daria depois á cidra o tom doirado”.

João de Motta Prego, in Heraldo da Madeira, n.º 598, 28 de agosto de 1906

A sidra é uma das bebidas mais antigas da ilha da Madeira, remontando aos dealbares do seu povoamento e aquando da introdução dos cultivos da macieira e da pereira.

Para evidenciar a sua já substante história, ou passado, João Adriano Ribeiro, na publicação «125 Anos de Cerveja na Madeira», datada de 1996, refere que «(...) havia igualmente uma tradição na ilha relativamente à sidra ou vinho de pêros, que era muito apreciada em princípios do século XX. Isto é testemunhado pelo número de lagares em toda a ilha, assinalando-se em 1908 dezoito». Também lhe faz devida referência Eduardo C. N. Pereira, nas «Ilhas de Zargo”: «com o pero fabrica-se uma bebida muito leve, estomacal e diurética, vulgarmente conhecida pelo nome de Cidra. É uma especialidade das freguesias do Santo da Serra, Faial e Santana».

Como se pode constatar, ainda existiria alguma imprecisão na nomeação correta do produto. De facto, as palavras «sidra» e «cidra», sendo homófonas, quando escritas são muitas vezes incorretamente aplicadas. Enquanto a «sidra» é a bebida proveniente da fermentação de maçã, a «cidra» é o fruto da cidreira, da família das Rutáceas (normalmente utilizada nos mais ricos bolos de Mel de Cana da Madeira).

A produção de sidra tem-se mantido até aos dias de hoje, com assinalável significado nas zonas mais propícias ao desenvolvimento de pomares de pereiros, de macieiras e também de pereiras, com particular destaque em localidades dos concelhos de Machico (freguesias de Santo António da Serra e de Machico), de Santa Cruz (freguesias da Camacha e de Santo António da Serra), de Santana (freguesia de São Roque do Faial), de Câmara de Lobos (freguesia do Jardim da Serra) e da Calheta (freguesias dos Prazeres e da Ponta do Pargo).

De facto, a sidra continua a ter uma presença marcada e assídua numa expressiva fatia do espaço rural madeirense, onde é produzida artesanalmente por agricultores com recurso aos seus próprios meios e com base no conhecimento acumulado durante gerações, quer na condução dos pomares quer nas técnicas de transformação dos frutos na bebida, permanecendo mesmo uma salutar rivalidade entre os produtores das diferentes zonas no reconhecimento da melhor e mais genuína sidra da Madeira.

 

 

Se, durante o seu longo passado, a sidra visava quase exclusivamente o autoabastecimento de quem a produzia, nas últimas décadas a sua esfera de consumo foi-se alargando paulatinamente além das populações rurais, por via de estabelecimentos de bebidas das zonas de produção e, mais tarde, das vendas diretas aos consumidores finais em mercados, feiras e em eventos ligados à promoção da produção dos peros, das maçãs e da própria sidra, realizados há mais ou menos tempo em várias das localidades de produção tradicional da bebida e dos frutos que lhe dão origem.

A sidra da Madeira é, porém, uma bebida ainda com um elevado potencial de mercado por explorar.

De facto, exceto algumas iniciativas de a colocar em certos restaurantes citadinos e lojas especializadas em produtos de qualidade premium, não deixa de ter uma fraca penetração nos principais núcleos populacionais da ilha da Madeira. Note-se que, segundo as estimativas mais recentes, de 2018, a RAM tem uma população residente de 253.945 habitantes, concentrando os seus concelhos mais urbanos, quase 80% daquele número: Funchal (41%), Santa Cruz (18%); Câmara de Lobos (13%) e Machico (8%).

Mas, para a sidra madeirense, não só interessará aquele manancial de consumo por conquistar, mas, igualmente, o proporcionado pelo setor do turismo, com a vantagem dos visitantes dos principais emissores conhecerem bebida equivalente nos seus respetivos países.

Em 2018, entraram na RAM 1.605.458 turistas, com uma permanência média de pelo menos 5 dias. Daquele total, que inclui Portugal continental (10,2%), os principais países estrangeiros de origem foram a Alemanha (20,5%), o Reino Unido (19,7%), a França (10,7%), e a Espanha (2,6%).

Ao turismo convencional haverá que adicionar o fluxo movimentado pela indústria de cruzeiros. Na verdade, desde há muito, a Madeira vem afirmando-se na rota dos cruzeiros. A sua localização atlântica torna-a um importante ponto de passagem e de escala de navios que se reposicionam entre as Caraíbas e a Europa como, paralelamente, a sua proximidade a outros portos permite a sua fácil inserção nos circuitos que envolvem as Canárias, a costa do Norte de África, o Mediterrâneo e a faixa atlântica da Europa.

Em 2019, o Porto do Funchal registou a escala de 283 navios, e 537.851 passageiros, na sua maioria de nacionalidade britânica, alemã e estado-unidense, os quais, em média, permanecem em terra um pouco mais de 5 horas. Ao movimento de cruzeiristas, há ainda que adicionar o dos tripulantes que, naquele ano, se cifrou em cerca de 207 mil.

Em 2019, de acordo com a European Cider and Fruit Wine Association (AICV), os maiores produtores europeus de sidra foram, por ordem decrescente: Reino Unido (10.037,84 milhões de hectolitros), Espanha (1.141,45 milhões de hectolitros), França (751,05 mil hectolitros), Irlanda (714,58 mil hectolitros), Alemanha (691,20 mil hectolitros), Polónia (561,50 mil hectolitros) e Finlândia (365,22 mil hectolitros).

Já quanto aos consumos per capita (litros/habitante) de sidra em cada um daqueles países, segundo a AICV, no ano passado, a distribuição foi a seguinte: Reino Unido (15,09), Espanha (2,45), França (1,12), Irlanda (14,75), Alemanha (0,83), Polónia (1,47) e Finlândia (6,60).

 

Direção Regional de Agricultura
e Desenvolvimento Rural

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