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As vagas de calor seco e a resposta face ao tratamento das nossas plantas

pseudobolbos desidratados
Pseudobolbos desidratados
folhas desidratadas
Folhas desidratadas
orquidea desidratada  
Orquídea desidratada

Regidas por ciclos onde a temperatura e a luz possuem pesos consideráveis, as vagas de calor seco que temos vindo a sentir na Região põem em perigo toda uma série de culturas e também a saúde nos nossos jardins.

Naturalmente atípicas, a resiliência das plantas é, regra geral, capaz para lidar e superar, sem atritos, essas ocorrências de calor, quando por períodos curtos. No entanto, quando associadas a uma baixa humidade relativa do ar, podemos estar perante danos sérios e mesmo irreversíveis.

Será fácil de conceber que, plantas em frutificação ou floração, aquando da ocorrência destes eventos atmosféricos, reagirão da forma mais imediata e com menor risco para a sua sobrevivência que será, precisamente, por abortar as suas flores e/ou frutos, conservando a energia e a água para a estrutura principal do ser vivo. Em muitos casos, poderão mesmo perder as suas folhas na tentativa desesperada de evitar a desidratação por transpiração.

Isto poderá ser concebível para uma grande variedade de plantas, mas não o é, ainda assim, para a maioria das plantas ornamentais. Pequenas herbáceas ou arbustos como as Impatiens, vulgarmente conhecidas como “Maravilhas” são particularmente suscetíveis a estes eventos, desidratando rapidamente, ao ponto do não retorno.

Por outro lado, plantas que possuam pseudobolbos, bolbos, rizomas ou tubérculos poderão sobreviver, mas sofrerão danos consideráveis no seu crescimento já que as estruturas responsáveis pelo seu crescimento, as folhas onde fotossintetizam, sofrerão danos de desidratação, mesmo que não expostas ao sol.

No caso das plantas tropicais, que sincronizam o seu crescimento para a época de maior calor, normalmente também mais húmida no seu habitat de origem, correspondente ao nosso verão e outono, ficarão totalmente dependentes dos nossos cuidados, que terão de ser redobrados.

As orquídeas, por exemplo, entram nesse campo. Nesta altura do ano, muitas estarão na altura de produção de novos rebentos, como as Stanhopea, ou a maturar e inchar os seus novos pseudobolbos, como nos Cymbidium. Espécies pequenas, miniatura, sem pseudobolbos ou outras estruturas de reserva estão particularmente vulneráveis.

 
vinha desidratada  

Grosso modo, podemos falar em três tipos de metabolismo que nos ajudarão a perceber que atitudes e abordagem devemos ter relativamente ao tratamento nestes períodos de calor e seca. A maioria das plantas que temos no nosso jardim, ainda que não sob sol direto possuem o que chamamos de metabolismo C3, C4 e CAM. Plantas com folha muito fina corresponderão às C3 e C4, e outras plantas de aspeto mais suculento corresponderão ao processo metabólico CAM.

Nas plantas C3 e C4, a fixação de carbono através da fotossíntese atinge o seu máximo nas horas de maior exposição solar. Os seus estomas, órgãos pelos quais as plantas fazem as trocas gasosas com o exterior, estarão abertos durante esse mesmo período, em particular nas C4. Essas plantas são as mais sensíveis à desidratação, já que estarão mais expostas, durante os períodos mais críticos.

Desta forma, as regas, que deverão ser mais abundantes durante estes períodos, deverão ser feitas cedo durante a manhã, permitindo uma maior absorção no substrato e estando assim disponível para a planta, assim que a luz atinja as suas folhas e inicie, em força, os processos metabólicos.

Nas plantas CAM, onde se insere a maioria das orquídeas, os estomas abrem durante a noite, minimizando as perdas de água aquando das trocas gasosas. Isto acontece com muitas bromélias, catos e outras suculentas. Na natureza, muitas vezes, essas plantas vêm uma grande discrepância na humidade do ar entre o dia e a noite e este processo evolutivo permitiu-lhes, em dois tempos, metabolizar. As trocas gasosas são feitas durante a noite, não correndo o risco de desidratar, já que a humidade atmosférica é, regra geral, bem mais elevada durante esta altura, e fixando o carbono, durante o dia, com a luz, através da fotossíntese.

Estas plantas poderão ser regadas durante o fim do dia, aumentando a humidade relativa para o processo que sofrerão durante a noite. Atenção especial ao facto de isso ser apenas possível quando a temperatura é superior a 16ºC em espécies tropicais de baixa altitude, não querendo entrar em problemas fúngicos e bacterianos que advirão da exposição da planta à água e ao frio.

Tomadas estas pequenas precauções e tentando minimizar a exposição direta ao sol nas nossas plantas, aliado ao seu poder resiliente, conseguiremos, com poucos danos, manter o nosso jardim saudável, evitando criar condições onde as plantas enfraqueçam e fiquem sensíveis a ataques de pragas, infelizmente, cada vez mais comuns por falta de controlo sanitário.

Para uma explicação teórica referente a cada tipos de metabolismo, num registo acessível, ainda que em inglês, sugiro a consulta de:

https://www.thoughtco.com/c3-c4-cam-plants-processes-172693

 

Pedro Spínola

 

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