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Contributo da pesca para a Ciência:
anomalias cromáticas em peixes capturados na Madeira

pico dourado
Embarcação de pesca "Pico Dourado" atracado no Porto do Funchal

Uma visita a um oceanário levará seguramente o leitor a registar, com olhar casual, a beleza e variedade de cores garridamente exibidas pelos peixes marinhos.

Pensará talvez:
- Bonito!...

Chamará a atenção dos seus filhos, se os tem, e continuará a visita sem pensar muito no assunto.

Todavia, a cor desempenha no mundo marinho um papel que vai muito para além do mero exibicionismo... embora este também seja relevante.

De facto, a explosão de cores dos peixes, num qualquer recife tropical, tem muito a ver com uma das funções mais importantes dos seres vivos. A reprodução. No mar, habitualmente, os machos são os vaidosos que desfilam cores garridas, esperando impressionar as fêmeas com uma corte fenotípica de saúde e vigor, marketing para vender um naco apetecível do pool genético da população, que estas não quererão deixar de passar à descendência.

Mas nem só para a gestão da sobrevivência coletiva vive o peixe. A lei da vida de qualquer animal marinho que se preze inclui o artigo: "comer e não ser comido". A cor, e a capacidade da sua alteração ou prudente utilização mimética, permitem a muitos peixes, misturando-se com os fundos ou jogando com as sombras na coluna de água, sobreviver aos predadores, ou, pelo contrário, esperar emboscados pelas presas que lhes trarão a ração diária de nutrientes. Pode ainda anunciar, a quem interesse, o sabor desagradável ou veneno letal que desaconselham qualquer ato hostil.

Porém, por vezes, numa coorte de milhares de descendentes de um feliz casal de peixes vermelhos. Ou verdes. Ou azuis. Ou sei lá de que paleta de cores, mutatis mutandis, a natureza troca as voltas aos termos da genética e surge o que os cientistas, na sua linguagem formal e um pouco pomposa, chamam: uma aberração cromática.

 
figura1
   Figura 1- Badejo (Mycteroperca fuscacom xantismo
   capturado na Madeira
figura2
   Figura 2 - Peixe-espada preto (Aphanopus carbo),
   com albinismo parcial (leucismo) 
em mais de 80%
   da superfície do corpo

E eis que na prole se destaca, qual involuntário rebelde, a raridade que os cientistas, quando têm a felicidade de lhe por as mãos em cima, irão chamar albino, xântico (figura 1) ou outro nome não menos estranho, perorando acerca de anomalias genéticas na pigmentação das escamas ou da pele, que terão provocado, respetivamente, uma ausência de melanina ou predominância de pigmentos amarelos.

Dir-se-ia no entanto que à medida que o mar "afunda", as coisas se tornam aborrecidas. Pelo menos no que toca à funcionalidade da cor. De facto, a sinfonia cromática vai, progressivamente, desaparecendo à medida que a luz se esvai nas profundezas. A partir do fim da plataforma, quando cerra no horizonte o negrume do talude adensa o mistério na luta pela sobrevivência.

O predado pressente o predador nas vibrações que a sua linha lateral capta. Este imagina a silhueta da presa no breve lampejo bioluminescente que quebra o negrume. Cuidado! A luz breve pode, porém, trazer não a refeição esperada, mas a lanterna traiçoeira que engoda o caminho para a bocarra forrada de dentes de um carnívoro ainda maior.

Provável reflexo evolutivo da modificação da função da cor nesse ambiente sem luz, nos peixes de profundidade predomina escura monotonia. Mas, também aqui, pode surgir a surpresa. Que espantou primeiro os pescadores do "Pico Dourado". De entre um a dois milhões de espadas pretas retiradas por ano, há mais de um século, dos mares profundos da Madeira, que se saiba, nunca tal fora visto. Apressou-se o mestre Nelson a trazer tal preciosidade para o "laboratório" das pescas, onde a surpresa foi confirmada e publicada, para conhecimento da ciência, como o primeiro registo de um peixe-espada preto que era, afinal, albino (figura 2).

De onde novamente se constata, como se necessário fosse, que o conhecimento científico nunca cessa de evoluir e a pesca e os pescadores deste arquipélago que, ao longo do tempo, tantos motivos de interesse e material têm fornecido à Ciência, particularmente à História Natural, continuam e continuarão a contribuir para o incremento do conhecimento nas últimas fronteiras que resistem neste mundo globalizado e que, ainda hoje, se podem encontrar naquele que permanece, em larga medida, um mare incognitum.

 

João Delgado
Direção Regional de Pescas

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