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A monitorização da qualidade das praias da RAM – identificação de microrganismos pelo Laboratório Regional de Veterinária e Segurança Alimentar

A poluição das praias constitui uma ameaça à saúde pública, particularmente para os milhares de banhistas que as frequentam anualmente durante o período balnear. Por este facto, são vários os países europeus que atualmente monitorizam a sua qualidade, seja a qualidade das águas, seja a das areias, por forma a garantir que a quantificação dos indicadores de contaminação microbiana não ultrapasse os limites de seguranças estipulados pela legislação internacional e nacional. Se isto acontecer, as autoridades sanitárias terão de diligenciar medidas que interditem o acesso às praias, podendo mesmo encerrá-las.

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Fig. 1 – Praias da Região Autónoma da Madeira (RAM) – Praia Formosa (esq.ª) e Praia da Calheta (d.ta) 

Embora a água da praia implique um maior contacto com a superfície da pele dos banhistas, há, porém, muitos que contactam com a areia por tempo prolongado, sendo que esta pode constituir um bom habitat para a proliferação e permanência de uma vasta gama de microrganismos. Por este facto, é necessário que se previnam e detetem eventuais focos de contaminação nas praias, através de estudos e análises microbiológicas - que na nossa Região se realizam no laboratório de micologia do Núcleo de Patologia Veterinária (NPV) do Laboratório Regional de Veterinária e Segurança Alimentar (LRVSA).

A maior parte dos microrganismos que se encontram na areia das praias têm origem ambiental, podendo provir de águas contaminadas, por exemplo, mas também podem ter origem humana ou animal, mas muitos, por si só, são vetores de infeção por contacto direto, na medida em que as areias lhes servem de reservatório. Nestes microrganismos incluem-se bactérias, vírus e parasitas, mas também fungos contaminantes ou patogénicos, os últimos dos quais identificados e quantificados no LRVSA para as praias da RAM.

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Fig. 2 – Praias da Região Autónoma da Madeira (RAM) - Prainha no Caniçal (esq.ª) e Praia do Porto Santo (d.ta). 

Porém, há que evidenciar que, quando se suspeita de contaminação fecal, a origem relaciona-se sobretudo com a atividade humana, conforme tem sido descrito em vários estudos epidemiológicos, que associam algumas doenças dos banhistas (como gastroenterites, dermatites e doenças respiratórias) e atividades humanas (como condutas de esgoto, explorações agrícolas, lixo deixado nas praias, descargas de barcos, tratamentos de águas residuais, etc.), à grande diversidade de microrganismos patogénicos que contaminam as praias (águas e areias). Mas também a presença e circulação de animais nas praias (como cães, aves e roedores) (Fig. 3) contribuem para a contaminação das nossas praias.

Claro que não é possível monitorizar-se todos os microrganismos patogénicos existentes nas praias. Como tal, recolhem-se amostras de água ou de areia para depois, mediante indicadores de correlação definidos por regulamentação europeia e nacional, se extrapolar o grau de contaminação dessas praias.

 
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Fig. 3 – Animais como prováveis fontes de contaminação das praias 

No caso concreto do LRVSA, mais concretamente no laboratório de Micologia, identificam-se fungos e leveduras (patogénicos ou comensais), microrganismos do solo com particular relevância no meio ambiente. Os fungos desempenham um importante papel na decomposição da matéria orgânica dos solos e das águas e, por serem heterotróficos, conseguem adaptar-se a várias condições ambientais. Além de saprófitas, podem também coexistir como agentes simbiontes associados a outros organismos. Mas também podem existir como parasitas desenvolvendo-se à custa de outos seres vivos, causando-lhes lesões e patologias.

Existem inúmeros tipos de fungos de variadas formas e tamanhos na natureza, podendo serem fungos unicelulares (as chamadas leveduras) ou fungos filamentosos (pluricelulares), sendo que dos mais comummente encontrados no solo são o Penicillium sp., Mucor sp., Rhizopus sp., Fusarium sp., Cladosporium sp., Aspergillus sp., entre outros.

Dentro dos fungos pluricelulares, destacam-se os dermatófitos, devido à sua importância clínica nos humanos e nos animais, dado que digerem a queratina (proteína presente na pele, unhas e pelos), podendo causar-lhes dermatofitoses (mais conhecidas por tinhas), que para os animais são diagnosticadas no mesmo laboratório de Micologia do LRVSA. Os géneros de fungos patogénicos mais comummente isolados nos animais são o Trichophyton sp. e o Microsporum sp.(fungos comensais dos animais - zoofílicos). Nos seres humanos, além destes também se podem isolar e identificar fungos do género Epidermophyton sp. (fungo antropófilico). Além destes, há ainda fungos dermatófitos geofílicos, cujo habitat é o solo, e que raramente causam infeção. O grupo de fungos mais frequentemente encontrado e identificado nas amostras de areia das praias da RAM é o dos fungos filamentosos, seguido do grupo das leveduras e, por fim, o dos dermatófitos, o que pode ser explicado, no último grupo, pelo facto de alguns fungos queratinofílicos não estarem adaptados aos ambientes marinhos, podendo a salinidade da água ser o grande fator de restrição ao seu desenvolvimento.

No que concerne às doenças infeciosas causadas por estes agentes, a expressão das mesmas não é igual em toda a população, ou seja, há pessoas naturalmente mais suscetíveis a serem infetadas, como as crianças, os idosos, os imunodeprimidos, gestantes ou outros grupos suscetíveis, considerados de risco. Torna-se, assim, essencial, no contexto da saúde pública, todo o trabalho desenvolvido no LRVSA para pesquisa e identificação de dermatófitos, nomeadamente nas areias das praias regionais (naturais ou artificiais) que, além serem bastante frequentadas pela população regional, constituem um produto turístico muito procurado. Sendo o turismo o maior garante da nossa economia, é fundamental que se cumpram todos os critérios de qualidade ambiental quer das águas quer das areias das nossas praias e tal só será possível se se monitorizar e avaliar regularmente a qualidade microbiológica das nossas praias, no cumprimento das recomendações da Associação da Bandeira Azul da Europa e da Agência Portuguesa do Ambiente. Só assim se poderão prevenir potenciais riscos para a saúde dos banhistas.

Sílvia Vasconcelos
LRVSA
Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural

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