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«Uma longa viagem inicia-se com o movimento de um pé.»
Lao-Tsé (séc. VII a.C.)

fprud1São já 44 os anos do filme de animação "A Família Prudêncio", distribuído como publicidade institucional pela RTP no início dos anos setenta do século passado, quando ao pequeno ecrã (na altura mesmo "pequeno", por contraste com o dos cinemas, tanto mais que não se adivinhariam os plasmas mais ou menos portentosos dos tempos de hoje), nem a cor chegara e a televisão era só aquela, dois únicos canais e para quem pudesse.

Não se julgue que o vórtice imparável do tempo tenha remetido aqueles sessenta segundos de película para um qualquer arquivo poeirento, pelo contrário, "vive", graças precisamente à extraordinária evolução das tecnologias de comunicação, permanentemente ao alcance do dedilhar de um botão.

E é com um sempre renovado prazer que se revê este curtíssimo spot.

Em primeiro lugar, está em causa uma obra-prima do cinema de animação português, pela mestria de um dos seus mais importantes e renomados criadores, o realizador Artur Correia (n. 1932). Autor daquele que é considerado o primeiro filme de animação comercial português, o "Eu Quero a Lua" (1970), através do estúdio de que foi o fundador (Topefilme), desenvolveu durante anos um profícuo e premiado trabalho nesta área, conquanto tenha iniciado a sua atividade artística no campo da banda-desenhada e da ilustração muitos anos antes, tendo 15 anos de idade quando colaborou em edição do semanário juvenil "O Papagaio", um dos decanos dos quadradinhos portugueses. Os menos jovens, e quando a televisão era uma das poucas alternativas de entretenimento, provavelmente lembrar-se-ão do "Vamos Dormir/Meninos Rabinos" (1971) e de curtos filmes didáticos como o "Para Não Fazer Mal Há Muito que Aprender" (1976), como talvez ainda de alguns anúncios publicitários em desenhos animados de produtos como a "Torralta", "Citroen" e "Schweppes".

A campanha da "Família Prudêncio" foi uma encomenda de instâncias governamentais da época, designadamente das com competências na higiene e segurança no trabalho e da então designada "fitofarmacologia". O nome escolhido para a família de agricultores não deixou de ser um achado, já que as práticas ilustradas pelos "Prudêncios" visavam a "prudência", a "precaução", a "prevenção", o "cuidado", a "cautela", ou, em última análise, a "providência".

Por outro lado, prestando a devida atenção ao anúncio, constatar-se-á que apenas duas das ações aconselhadas ao tempo (a queima e a enterra das embalagens vazias dos pesticidas) são atualmente totalmente proibidas, mantendo-se todas as restantes pertinentes. Esta situação é entendível, já que era aquele o estado dos conhecimentos técnicos detidos na altura sobre a problemática da aplicação dos produtos fitofarmacêuticos, em que as preocupações ambientais não ocupavam (ainda) uma posição central. Os "Prudêncios" não estavam a ser "Imprudêncios", só seguiam as "melhores" orientações sobre a matéria àqueles anos.

Salvo as práticas desatualizadas e agora interditas, o que é certo é que esta simpática família muito contribuiu para a alteração de comportamentos incorretos (e inseguros) de muitas gerações de agricultores portugueses na aplicação dos pesticidas.

Em jeito de conclusão, e repegando na frase do filósofo chinês Lao-Tsé que sublinha a epígrafe deste artigo, o que se poderá afirmar é que, se não fosse o primeiro "passo" dado no aconselhamento à minimização dos riscos para o homem, os animais e o ambiente resultantes da aplicação dos produtos fitofarmacêuticos nas explorações agrícolas, com a inestimável colaboração dos "Prudêncios", a "viagem" que falta não poderia prosseguir...

Paulo Santos

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