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Preferir o que é da nossa (boa) agricultura!

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Ontem briguei com a Hermengarda! O Alcobias III, distraído como de costume, julgou que a coisa era com ele e refugiou-se, tal quando a tempestade lhe é verdadeiramente dirigida, para dentro do canteiro de flores que na altura estivesse mais bonito. No caso, o de ranúnculos agora numa paleta de cores deslumbrantes. Com ele os briguedos teriam de ser muito breves ou lá se me iam irreparavelmente algumas das floritas mais preciosas que o jardim me oferece.

A voz daqui da Quitéria Maria, com o tom que adquire pelo ímpeto duma irritação, uma urticária súbita que lhe queima o peito, sempre teve este efeito pelo menos, comprovadamente, no que respeita a gatos. O que registo diferente neles é a opção pelo esconderijo temporário. O Alcobias I enfiava-se debaixo da penteadeira do quarto dos hóspedes, o II camuflava-se no meio da roupa para engomar, e este, mais dado à natureza, lá me punha em pânico a delicada corte de rainhas e princesas passageiras do quintal.

Em latim "ranúnculo" quer dizer "pequeno sapo", porque apreciará zonas húmidas e próximas de cursos de água, mas estes, e se calhar deva convencer-me em revisitar o Dr. Anacleto para afinar o grau dos óculos (que só uso para o longe, diga-se), lembram-me saiotes de tule de bailarinas. De pernas para-o-ar, em camadas suavemente justapostas, todos de cores quentes, uns amarelo-manteiga, outros laranja-fogo, vários violeta-nódoa-negra, e uns quantos branco-açúcar.

Ai! Lá estou eu a divagar e a deixar levar-me pelo feitiço das cores. Voltando ao que me trouxe à pena (de plástico, porque desenrasco-me com o computador que era da minha bisneta Ritinha... embora, aqui para nós, não possa abusar, pois se estiver a dedilhar mais de dez minutos seguidos sem descansar, deixo de sentir a falange distal do indicador direito, e se quero por um "a" sai-me um "s" ou um "w"...), pois então, ontem briguei com a Hermengarda! Coitada da pequena, agora mói-me um remorsozito.

Mas a Mengarda, como a abrevio num diálogo mais longo, tem esse condão, que reconheço, involuntário ou, no mínimo, inconsciente. Seja que assunto for, se o esmiuçamos um bocadinho, sai-se-me com umas afirmações ou, mais raras vezes, ideias, que têm o mérito de bulir-me os nervos. Ela até é uma rapariga de que gosto muito, bom feitio e coração, mas é algo influenciável e tem um grande (e muito antigo) complexo.

A influência, que considero não muito saudável, parte de um sobrinho neto, o Toninho, novo-rico emproado, que tem um daqueles carros espampanantes que devem custar uma nota preta. Se trabalha, tem uns horários esquisitos, e nem a Hermengarda sabe o que ele faz em concreto, apenas que o próprio afirma, sem nunca precisar, que tem "muito trabalho". Vem visitá-la dia sim, dia não, pouco se demorando, e traz-lhe a maior parte das vezes uma mão-cheia de sacos de supermercado a abarrotar de compras.

Sempre que se dava o caso de, sem querer obviamente, que cá a Maria Quitéria não é cusca, eu assistir àquela reunião breve à penumbra da porta da loja da Hermengarda, ela repetia-me, logo que nos voltássemos a encontrar, a explicação de que fora uma mãe para o Toninho, que a verdadeira lhe faltara era ainda bebé, e o pobre pai ensandecido com o desgosto partira, em menos de um ano, para se juntar à amada. Sobre o complexo, tonto como o serão todos, aquele ia buscar a pele à infância e aos tempos da juventude, ao facto de ter nascido e vivido "no campo", dias e dias cheios de dificuldades e privações, as quais só não foram piores porque o Estanislau lhe pedira a mão em casamento e ala com eles, onde se mantiveram por trinta anos, para a pátria de Símon Bolivar.

Desculpem! Lá estou eu a desviar-me novamente do assunto, e quem me leia ainda não ficou a saber o porquê, de ontem, ter brigado com a Hermengarda.

Estava uma manhã de primavera envergonhada como a de hoje, um céu que tivesse sido forrado com uma única e gigantesca nuvem. Temperatura amena e nem uma aragem capaz de agitar as frágeis petúnias penduradas nos postes da latada. Descera ao quintal como o faço todos os dias após a levanta, a caneca de café cheiroso numa mão, o tablet na outra, e o Alcobias III a fazer ziguezagues por entre as passadas. Ir-me-ia sentar no banco por baixo de uma das ramadas da minha cerejeira, agora com pares de brincos carmim a despontar aqui e acolá e, porque faltava que despertassem algumas partes do cérebro, apanhei um grande susto com o balão sorridente parado sobre o muro abaixo.

Não é que ela não me aparecesse sempre assim, apenas o rosto abalonado resvés o prumo do muro que separa o meu quintal da fazenda dela. O seu metro e cinquenta, mesmo colocado em cima de uma banca alta, vá lá que bem resistente que isso a Quitéria Maria desde o primeiro encontro recomendou e verificou, só lhe permitia me apresentasse a cabeça e a prega superior do pescoço. A novidade foi aparecer tão cedo, que a rapariga nunca acordava antes das 10.

 

Refeita do susto, a Hermengarda logo começou «bom dia menina. Hoje tenho uma coisa que o Toninho me trouxe para experimentarmos ao almoço. Uma sopa de verduras já feita, é só aquecer no "ondas", e deve ser boa de certeza que vem lá de fora do estrangeiro». Pronto, o "caldo" ou, mais concretamente, a "sopa" estava entornada.

Aquela proposta deu imediatamente corda aos diabinhos que moram, para o bem e para o mal, dentro da Quitéria Maria e, irritada, disparei «Mengarda, não venha com tontices! Agradeço o convite, mas bem sabe, e porque também posso e tenho tempo, não prescindo de fazer a minha sopinha todos os dias. Mas só com produtos daqui do quintal, ou aquelas que a senhora tem na sua fazenda e me dá». A pobre da Hermengarda ficou vermelha que nem um pimento e o grosso lábio inferior pendido, desamparado com a surpresa da minha reação.

Entretanto o Alcobias III já se encafuara para o meio dos ranúnculos, e nem me importei, continuando «até que eu, hoje, lhe ia sugerir fossemos ao Mercado dos Lavradores fazer umas compritas. Já apalavrara com o Sr. Manuel o taxista, porque a batata velha já se me acabou, não tenho feijão-verde e queria comprar espinafres, que são muito ricos em ferro. E depois não julgue que compro coisas que venham de fora, pois do que eu sei das economias do mundo e ao ponto a que chegaram, se cada qual se preocupasse com a sua, talvez todos estivéssemos melhor. Se compro as frutas e os legumes no lugar do Sr. Bonifácio, é porque seja o que compre, sei quem foi o agricultor que produziu o quê e onde. Ele já sabe, nem lhe preciso de perguntar... as batatas trouxe-as o Sr. Francisco de Santana, os agriões vêm de São Vicente, da Sr. Genoveva, e por aí fora...».

AI Agrifamiliar1A cabeça da Hermengarda começava a desaparecer lentamente pelo muro abaixo e, sem piedade, os diabinhos ainda cheios de comichão, continuei a atirar «a senhora não sabe que este é o Ano Internacional da Agricultura Familiar, e é esse tipo de agricultura que temos na nossa terra? É ela que faz com que os nossos campos estejam sempre cultivadinhos, um autêntico bordado feito com linhas de tantas cores, trabalho este que delicia os turistas que nos visitam?...».

Nem o cocuruto da Hermengarda já era visível, e ainda assim disse «A Mengarda tem cada uma!!!...». Sabia-a amuada para o resto do dia.

Não deixei de fazer a minha sopinha com todas as verduras que ainda tinha no frigorífico. Daria para o almoço e sobraria para o jantar.

dona quit1Mas o tal remorsozito começara a germinar, e foi crescendo com o avançar da tarde.

Lembrei-me então de apaziguar aquele mal-estar, e tive uma ideia.

Lera não há muito tempo que no dia 20 de junho próximo, decorreria no Funchal, no Auditório do Centro de Estudos de História do Atlântico, uma conferência com o título «A Agricultura Familiar na Região Autónoma da Madeira, Passado, Presente e (Que?) Futuro», precisamente a propósito do Ano Internacional da Agricultura Familiar.

Fui ao computador, com o nome do evento encontrei o site, e inscrevi-me a mim e à Hermengarda.

Se lhe dissesse que o fizera de certeza que barafustaria, afirmando que aquilo é para doutores e outros senhores importantes, e que não iria entender nada. Não! Na véspera dir-lhe-ei que já marcara o táxi do Sr. Manuel, e que no dia seguinte estava convidava a acompanhar-me para um passeio surpresa... só poderia saber que lá para o fim meteria um chazinho e uns estaladiços scones (tinha de a convencer minimamente, não?).

O Alcobias III soltou um miado como se concordasse com a minha decisão, prosseguindo a brincadeira com a inflorescência decepada de um dos meus queridos ranúnculos.

 

Quitéria Maria
(com Paulo Santos
Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural)

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