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Penso, logo existo! Ou cato, logo pico!!!

dona quiteria julio cesarDe vez em quando, com mais ou menos acerto, subia-me à língua, àquela sua parte de trás que retém brevemente cada palavra caída do cérebro antes que a boca a dispare, uma ou outra das célebres elocuções de (Caio) Júlio César. Julgo que tal ocorrência episódica dever-se-á ao meu mais de meio século de professorado e às horas incontáveis a discorrer sobre o Império Romano, os seus heróis e vilões, glórias e vanidades. Fazia-o com paixão sentida, como acontecia com a(s) história(s) da Grécia e do Egito (ui, este Acordo Ortográfico!) antigos e, para arrebitar o interesse da criançada pela matéria, socorria-me amiúde dos ditos do homem que derrotou Vercingetórix e a sua confederação de tribos gálicas (claro, à exceção daquela aldeia irredutível onde ainda moram Astérix e Obélix, e a 22 de outubro teremos novo álbum, o «Papiro de César» que aqui a Quitéria Maria não vai perder) e que chegou a ter uma romance, e um filho, com Cleópatra. Quando era dia de ponto, no momento de distribuir a folha com as perguntas, lançava a cada aluno um invetivante «Alea jacta est» («a sorte está lançada»). Noutras circunstâncias, quando uma miúda ou um miúdo engasgavam na sabedoria, sussurrava-lhes um desiludido «Tu quoque, Brute, Fili mi» («Tu também, Bruto, meu filho»).

dona quiteria herberto helder
dona quiteria manoel oliveira

Naquele dia, do lado de fora do alpendre madeirense, de frente para o meu pequeno paraíso terrestre, o bonito jardim que muito devo à arte e paciência do Sr. Fulgêncio, veio visitar-me sem convite outra frase atribuída àquele que, pouco antes do tal Bruto e outros senadores o assassinarem, granjeara o título de Pater Patriae: «Veni, Vidi, Vici» («Vim, Vi, Venci»). A lembrança daquela expressão de vitória máxima não resultava de um súbito refluxo de ensinanças passadas, de qualquer possível imaginação da clamorosa, e sobretudo rápida, derrota infligida por César ao rei Fárnaces do Ponto na batalha de Zela. Naquele caso, fora sacada do baú da memória pela presença de outro conquistador reptante e avassalador: o general Leste. A noite anterior tinha sido estrelada sobre uma frigideira de lume azul anil e nada fizera adivinhar pôr-se uma manhã tão tristonha. O céu acordara debaixo de uma mancha de leite fermentado, com retalhos sobrepostos de cor arenosa. E o pior, o ar enchia-se de uma humidade pegajosa que triplicava o peso de tudo, principalmente do que era obrigado a movimentar-se. Como o meu corpo que não se dava por muito tempo quieto. O Leste era aquele tempo mouro que, de facto, chegava num ápice, contemplava com sobranceria as hostes indefesas e, depois, vencia-as sem piedade com uma impressão de sufocamento. Que o diga o Alcobias III, o primeiro a mostrar aflição. Dentro de casa refugiava-se no recanto mais fresco, esparramando-se nos ladrilhos sob o mesão grande da cozinha. Na rua, a busca era a mesma, enfurnando-se no meio das plantas mais rentes às muradas e que o sol raramente bafejava.

Para a minha meteorologia interior, o Leste era um dos agentes mais adversos. Naquelas alturas, fazia como o meu gato e exilava-me, dentro ou fora da moradia, para o local mais respirável. Ia mudando de sítio conforme o avançar do relógio e do frescor, arrastando comigo um livro e uma moleza, que passava a dormitação logo que me sentasse. Não bastasse o tempo provindo do norte de África, duas notícias más tinham-me agravado substancialmente o clima ao nível do coração. Os anjos tinham levado, primeiro, o nosso bardo luminoso, o Herberto Hélder, e não satisfeitos com o egoísmo, raptaram o querido Manoel de Oliveira, quiçá para instalar o verdadeiro Cinema Paraíso.

A Páscoa estava em meio caminho, e até aí tinham sido uns dias bem felizes. O cerimonial começara com a combinação entre mim e a Hermengarda, como vinha sendo hábito nos últimos anos, do jogo do balamento: a duração seria de duas semanas a terminar na Quinta-feira Santa, a hora entre as 5 e as 7 da tarde e o troféu um substante farnel com as melhores guloseimas que a quadra tem. A caixa apenas tinha de ser a que a minha vizinha previamente selecionara, a qual só poderia ser enorme. Aceitei porque iria estar prevenida para a encher convenientemente. Sem que ela soubesse, na semana anterior, tinha antecipado com a Eufrásia a feitura de uns bons quilos de torrões de amêndoa e de chocolate. O volume e o sabor delicioso estavam garantidos. Aliás, tudo recomendava uma adequada provisão, pois nunca ganhara ao balamento à Hermengarda. Da sombra mais inesperada e no momento mais descuidado, a rapariga tinha cá uma mestria de me surgir de dedo espetado pela frente. Neste jogo, o resultado a favor dela já marcava 5-0.

 

dona quiteria ovos3Os ovos da Páscoa também estavam prontos para que no domingo seguinte os meus bisnetos mais novinhos, o João e a Maria, os viessem procurar escondidos pelo quintal. No artesanato dos ovos a Hermengarda era exímia. Não sei como conseguia mantê-los inteiros numas mãos que fazem três das minhas. Com mais ou menos afogueamento do rosto, à medida que geria pincéis e tintas, o certo é que ficavam muito bonitos e alegres.

Voltei a mim, estática à entrada do jardim, sem saber bem o que estava ali a fazer. O «Veni, Vidi, Vici» de César a tamborilar-me algures na mente, o Leste a envolver-me na sua maneira gumosa, e aqueles dois desaparecimentos, os do poeta e do cineasta geniais ainda a causarem uma enorme estranheza e sensação de inverdade.

Lembrei-me então do que me levara a onde estava, o propósito interrompido por aqueles inusitados acontecimentos. Queria dirigir-me ao estufim do quintal, onde o Sr. Fulgêncio madrugara. Estávamos a selecionar as plantas que levaríamos ao concurso da exposição da Festa da Flor, que estava à porta. Quem cuidava das orquídeas era o meu jardineiro de tantos anos, que herdara a missão do meu saudoso Alcobias. O meu marido era um verdadeiro apaixonado pelas "bichinhas", como carinhosamente tratava as ditas, porque lhe faziam lembrar borboletas, apenas celestiais, reforçava ele. Tratava-as tão bem que ganhou vários prémios quando os concursos decorriam no Ateneu. Os troféus estão todos na sala de estar, cada um inchado de orgulho como ele ficava quando as plantas mereciam os encómios do júri.

dona quiteria catoO Sr. Fulgêncio, dado que não era pessoa de muitas falas, fez-me rapidamente o resumo do estado das coisas. As orquídeas escolhidas estavam todas num tabuleiro cimeiro e uma, ligeiramente separada das outras, se "engordasse" um pouco mais, talvez pudesse marcar presença no concurso. Vi então numa prateleira do lado direito da pequena estufa meia-dúzia de «bancos de sogra». Nesta fase, talvez "banquinhos", dado que tinham sido repicados não há muito. No entanto, exibiam espinhos respeitáveis. Nem mais. Um deles ia direitinho, bem disfarçado numa embalagem, para aquele jornalista de um dos principais canais da televisão portuguesa, que foi destacado para reportar a última homenagem ao realizador portuense. Não é que o rapaz vociferou mais ou menos isto: «Manoel de Oliveira tinha 106 anos. Obviamente, mais dia menos dia teria que falecer... aconteceu hoje»!!! Ai teria, teria... um piquinho de cato (ui, novamente o Acordo Ortográfico) no dedo, para não dizer na língua, que aqui a Quitéria Maria não é maldosa.

dona quiteria florO Sr. Fulgêncio ficou de falar com o Sr. Manuel taxista para, na próxima semana, levarem as "misses" vegetais até à exposição floral no Largo da Restauração. À conta das orquídeas regressei ao meu quarto de dormir onde, na mesinha de cabeceira, ficara o «Passos em Volta» do Herberto Helder, que fora desencantar à biblioteca para reler. Peguei na obra e procurei algo que lera na noite de ontem: «A verdade é que eu ainda não encontrara o meu estilo. Mas ouça meu amigo: conheço por exemplo a história de um homem velho. Conheço também a de um homem novo. A do velho é melhor, pois era muito velho, e que poderia ele esperar? Mas veja, preste bem atenção. Esse homem velhíssimo não se resignaria nunca a prescindir do amor. Amava as flores. No meio da sua solidão tinha vasos de orquídeas». Belo. Agora que o Manoel de Oliveira foi (re)fazer filmes para um lugar secreto do firmamento, se ele me ouvisse far-lhe-ia uma sugestão: colocasse no cabelo da Teresinha de «Aniki Bobo» uma flor branca de orquídea.

 

Quitéria Maria
(com Paulo Santos)

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