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Pipocas - do campo para a "boca" do Cinema! (parte V)

sombraO vírus da "descrença", desde a sua remota aparição, mais ou menos há idade do primeiro rasgo de hominídeo, veio contaminado de outros microassassinos, tão ou mais perniciosos que o hospedeiro, como, só para citar entre os mais temíveis, os sub-vírus da "mesquinhez" e o da "renúncia". Coabitante mais ou menos inerte desde o Homo sapiens, haverá pessoas em que o parasita intracelular, com os que leva à garupa, apenas manifesta episodicamente a sua virulência e, outras, em que a sezão é crónica e produtora de grandes estragos, sobretudo sobre o ânimo de quem atinjam. Mais vale considerar casos que estejam lavrados na memória coletiva dum povo e, cada qual, recordará os seus. Inevitavelmente, os portugueses tiveram "bons doentes" desta maleita. Dos melhores espécimes, distinguir-se-á o "Velho do Restelo" que Camões soergueu da margem do Tejo como uma sombra agourenta sob os que dali partiam em busca de «promessas de reinos, e de minas D'Ouro». Para os madeirenses, se calhar faltará comprovar o rumor sobre a existência passada de um denominado "Velho do Pilar de Banger".

Por analogia, em Hollywood, encontraríamos um "Velho do Monte Lee". No maior encarniçamento da escaramuça entre o cinema e a televisão, mas somente nas noites de ocorrência dupla de céu limpo e lua cheia, seria um vulto de chapéu de coco que subia aquela colina até um muro de letras iluminadas a meia-encosta. Dali, ora das reentrâncias do "H" ou do "W", vociferava então: «que eu bem disse que o cinema era uma invenção sem futuro». Embora semiobscurecido, facto sublinhado pelo aparato na cabeça, pelos 14 metros de altura dos caracteres do anúncio que originalmente se destinara a promover uma aventura imobiliária, percebia-se-lhe um fulgir à altura dos olhos e uma marca escura abaixo da área certamente ocupada pelo apêndice nasal. Apontassem-se-lhe por momentos os faróis de um automóvel que passasse pela Mulholland Highway, reconhecer-se-iam um pouco melhor outros apetrechos da figura intempestiva, mais precisamente uns óculos de aros redondos e um bigode assinalável, já a agrisalhar. Focando um pouco melhor a personagem invetivante, juntamente com algum esforço enciclopédico, identificar-se-ia então estarmos perante Louis Lumière, o mais novo dos irmãos que abriram o caminho para que simples "imagens em movimento" viessem a ser muito mais que isso, em certas explorações mesmo, uma Arte, a 7.ª, segundo a certa antevisão feita em 1912 por Ricciotto Canudo.

Talvez por se tratar de um fantasma, o império do cinema esparramado pelo vale abaixo nada lhe ligou. Ele sabia que com o inesgotável génio e arrojo dos que nele moravam ou vinham colocar-se à sua órbita, o inventor do cinematógrafo jamais teria razão.

Repegando os já citados «Desafios dos Novos Media», o seu autor, Rui Cádima, esclarece que «o pior momento do cinema americano no que respeita à crise de salas e de público é, de facto, o final dos anos 60 e princípios dos anos 70» e, um pouco mais adiante, vem confirmar o invejável talento daquele para reagir às contrariedades, nunca assumidas como um fatalismo: «A partir de então dá-se uma recuperação do mercado, que é também uma recuperação da indústria e da produção - é a aposta das majors no filme de "grande público", por exemplo. É o tempo da chegada ao campo do cinema de uma série de realizadores que vinham da televisão: Sidney Pollack, Arthur Penn, John Frankenheimer, Robert Mulligan, etc. É ainda o tempo das transmutações no plano das narrativas de ficção televisiva e cinematográfica». Mais adiante Cádima continua a explicar que «entretanto, o primeiro telefilme aparece também em 1966, cerca de 10 anos depois da primeira longa-metragem na NBC. A ABC faz também uma aposta forte no género, e no período de 1971/72 difunde treze dos melhores telefilmes do ano na TV americana. E a partir daí não mais pararam. Verifica-se então que um pequeno número de filmes realiza uma boa parte das receitas, chamando de novo o público às salas: em 1975 a média semanal de frequência sobe para os 20 milhões, que se mantém até 1990, com pequenas oscilações, o que quer dizer que ao longo desses últimos 15 anos o mercado americano conseguiu estabilizar o seu público. O que não deve fazer esquecer que estes últimos números relativos à década de 80 representam cerca de 1/4 do público dos anos 40. Mas se o público decresce - e muito - relativamente aos anos 40, o parque de salas cresce: 23.689 salas contabilizadas em 1990, nos EUA, ultrapassam nalguns milhares o máximo que havia sido conseguido nas décadas de ouro (cerca de 19 mil salas)».

 
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Com as pipocas a recuperarem o gosto e a barriga dos norte-americanos, estivessem estes pela pacatez de casa em frente a um televisor, ou espojados na poltrona de uma sala de cinema assombrados por uma tela gigante, as hostilidades entre as indústrias cinematográfica e televisiva, com o tempo, foram-se pacificando. Sem nunca terem declarado um mútuo amor, aparte uns arremedos de paixão, dali para a frente porfiaram conviver educadamente e a partilhar negócios.

O nosso guia Rui Cádima, ainda refere «que o final dos anos 70 corresponde também ao enorme sucesso da pay-TV e da televisão por cabo, o que provoca, por parte das network, a necessidade de serem encontradas fórmulas alternativas. O boom da série e do telefilme está também associado a esta questão. Voltam assim em força os formatos 26/52 minutos ao longo de 13 semanas. No final dos anos 80 a HBO, por exemplo, difunde já cerca de duas centenas de filmes/mês e é uma das maiores detentoras de direitos. No final dos anos 80 é um outro fenómeno que emerge: o vídeo é doravante a principal fonte de receitas da indústria cinematográfica americana».

sombra5Um filme desejado ter sido visto mas que se perdera, ou que sequer se sabia existir, chegava assim empacotado em retângulo ao recato dos domicílios para exibição privada e exclusiva, sem horário marcado e, com a hipótese de poder satisfazer "curiosidades" mais ou menos inconfessáveis.

Para as pipocas tudo bem, viesse o vídeo ou outro veículo para o cinema, apenas mais um excelente motivo para serem devoradas.

sombra3(continua na próxima edição do DICA)

 

Paulo Santos
Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural

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