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Pipocas - do campo para a "boca" do Cinema! (parte III)

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Há uma canção do final dos anos 70 da centúria anterior (esta localização do passado faz quase sempre parecer muito velho tudo a que se cole quando, como é o caso, a patine do tempo nem adquiriu espessura que se note), que tem por refrão «video killed the radio star». O que os The Buggles cantavam vaticinava a abertura de uma nova era para a expressão e divulgação da música, ou não tivessem, o que talvez confirme o propósito original, aqueles três minutos e oito segundos feéricos dado corpo (e alma) ao primeiro vídeo-clip emitido pela MTV norte-americana pelos idos 1981. A banda do mago da pop Trevor Horn exageraria, ao acusar o vídeo de serial-killer dos que se tinham alcandorado ao estrelato pela voz das telefonias e de outras caixas, de válvulas e transístores misteriosos, debitadoras de sons. O vídeo-resultado ou videograma, para que não se confunda com o nome da tecnologia que lhe está na base, não se bastava a si próprio, ainda que congregador e possibilitador de várias artes dispersas e, naquele "crime", quanto muito, vestira a pele de sicário. Os "cantores da rádio" há muito tinham deixado de o fazer em direto e as suas tonadilhas ido morar para suportes gravados.

A haver um mandante do "assassinato" dos astros do éter fora a sonsa da televisão, a qual aperfeiçoara o principal sentido que capturava do público: a visão colorida. De facto, foi com a democratização da televisão (em 1930, um televisor custava qualquer coisa como 7.000 dólares atuais), depois da II Guerra Mundial, e com o início das transmissões a cores pela NBC, em 1954, que as audiências deste média começaram a ganhar uma dimensão imparável. Naqueles anos 50, era a "caixinha mágica" que enfeitiçava um número crescente de olhares, embasbacando à sua volta, qual fogueira de ilusões, as famílias que, por essa via, autoaprisionavam-se docilmente nos lares.

Com a ascensão fulgurante da televisão, em proporção inversa ressentiram-se principalmente o teatro e o cinema, sendo que a arte que os gregos impulsionaram já bem sofrera com o advento da que tivera o prelúdio em 1895, no Grand-Café do Boulevard des Capucines em Paris, com a exibição para 33 pessoas entre o desconfiado e o atónito, de «La sortie de l'usine Lumière à Lyon» e outros 9 pequeníssimos filmes. No cinema o baque foi mais estrepitoso, registando-se naquela década uma redução de 50% dos espetadores habituais. Se o cinema perdeu metade da clientela, as vendas de pipocas inevitavelmente foram levadas na mesma queda.

Nas terras do Tio Sam, de 1950 para 1960, o parque de televisores cresceu a galope, de 3,9 para 55,6 milhões, e à volta de 500 canais agarravam às poltronas, à média de 5 horas por dia, quase 40 milhões de pessoas. O negócio televisivo era alimentado por 10 mil anunciantes que ali derretiam mil milhões de dólares por ano. Do outro lado da balança das 19 mil salas de cinema existentes em 1946, em 1967 só se mantinham 9.600.

Já não se estaria na época dourada do concubinato entre o cinema e o "popcorn", em que um exibidor chegou a professar outros pares afirmando: «montem uma máquina de fazer pipocas e construam um cinema em volta». Contudo, pese a enorme sangria de frequentadores, aquela relação manteve-se firme dada a comunhão de bens continuar a ser conveniente para ambas as partes. Para os exibidores independentes, a venda de pipocas representava cerca de 40% das receitas da sua atividade, já que dos bilhetes as distribuidoras debicavam 70% do seu valor.

 

Para reconquistar o público, o cinema investiu fortemente em novas soluções tecnológicas. Na refrega inicial contra a televisão, além da coloração de filmes a preto e branco, que tinham sido êxito de bilheteira, e da introdução do som estereofónico, ocorreu o advento do cinema panorâmico. Os primeiros televisores foram criados com o mesmo padrão de imagem do cinema de então (4:3) e os estúdios, para se diferenciarem, quiseram torná-la mais próxima da visão humana (por ser mais larga), através do sistema widescreen. Neste processo destacou-se o «cinerama», que consistia na utilização de imagens emitidas simultaneamente por três projetores de 35 mm sincronizados para uma tela de dimensões gigantescas e extremamente curva, com um arco de 146°. O objetivo consistia em proporcionar ao cinéfilo uma "visão panorâmica" do que se passava na tela, fazendo com que este se sentisse envolvido na trama. A realização dos filmes para este sistema obrigava igualmente à utilização de 3 câmaras, apresentava defeitos na justaposição das imagens e só um escasso número de cinemas tinha condições para proceder ao alto investimento necessário. O «cinerama» foi descontinuado poucos anos depois de ter sido congeminado, sobretudo graças ao génio dos engenheiros da «Panavision», que foram desenvolvendo lentes cada vez mais evoluídas para a captação e posterior projeção de imagens, reduzindo substancialmente os custos de produção e divulgação dos filmes e melhorando radicalmente os efeitos visados com o widescreen.

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Ainda quanto à substância fílmica propriamente dita, está errado quem julgue que a tecnologia 3D só transfigurou as telas com "Avatar", de James Cameron, em 2009. Na verdade, remonta a 1952 a experiência pioneira daquela técnica. O filme em causa foi «Bwana Devil», rodado em 3D anáglifo, que consistia na sobreposição de duas imagens da mesma cena, cada uma com um filtro de cor e captada de um ângulo diferente. Para ser visionado, havia que utilizar uns óculos especiais, em que cada lente tinha um filtro colorido correspondente aos das filmagens, de forma a dar a sensação de profundidade. Os espetadores queixaram-se de dores de cabeça e enjoo, e o caçador de leões só deu prejuízo à United Artists. Mas não foi por isso que outros reputados estúdios deixaram de apostar na ferramenta, tendo a Warner Brothers lançado, em 1953, «House of Wax» e a Columbia, no mesmo ano, estreado «Man in the Dark».

(continua na próxima edição do DICA)

 

Paulo Santos
Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural

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