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Partir sem ir...

«(...)Deixemos as casas, na sua condição de jangadas,
cumprir com a sua missão de navegar.»
José António Gonçalves (1954-2005) [1]

festival regional de folclore2015 CARTAZNuma escolha consensual dos grupos folclóricos e etnográficos envolvidos, o tema a glosar no XXXI Festival Regional de Folclore, enquadrado no certame 24 Horas a Bailar, de regresso ao seu formato original, centrar-se-á na emigração, fenómeno que não se deverá considerar endémico e, como tal, estigma, ainda que indelevelmente inculque o devir e o ser (mais que o ente, o pertencer a um povo único) madeirense.

A terra que nos coube em sorte, e que magnânimo o destino, sabemo-lo pequena e caprichosa, somente se tendo deixado domar em pouco menos de um terço do que emerge do Atlântico. Para os que a foram sopeando nos primeiros tempos após a sua descoberta, tal caráter difícil não constituiu obstáculo, antes desafio e oportunidade. Porém, se bem que sentindo uma energia extraordinária, não perceberam imediatamente a causa da força indómita que, excedendo o limite da resistência humana, os levou do calhau a alturas sucessivamente superiores, esculpindo nos rochedos tabuleiros sobrepostos para dar lar aos cultivos agrícolas. Por aquela era primeva, desconheciam terem amarado a cumes os fragmentos visíveis de uma ilha muito maior, talvez mesmo continente, de nome Atlântida, há milénios por ali afundada, e que o vigor que os imbuía provinha de uma fonte mágica ainda ativa nas profundezas.

Joaquim Vieira Natividade (1889-1968), no seu arrebatador texto «Madeira – A Epopeia Rural» [2], exacerba apaixonadamente aqueles que transformaram a «ilha misteriosa dos arvoredos sombrios, de rochas e de bruma» que Zargo e Tristão encontraram em «ilha dos frutos e das flores, jardim do mar, horto edénico de eterna primavera verdejante». Incontestavelmente, foram os homens e as mulheres madeirenses que produziram este «espantoso milagre», os quais, durante séculos, como mais exalta o engenheiro agrónomo que, por 1947 esteve na Madeira para elaborar um plano de fruticultura, não cessaram «o trabalho rude de picareta e da alavanca e à custa de vidas, de suor e de sangue talharam-se na rocha as gigantescas escadarias, sem que o alcantilado das escarpas, a fundura dos despenhadeiros ou a vertigem dos abismos detivessem os passos do Titã. Monumento este único no mundo, porque jamais em parte alguma, com tão grande amplitude, tanto esforço humano foi empregado na conquista da terra». Nas palavras do autor deste delicioso opúsculo, também «o madeirense venceu a água: o que era torrente perigosa e rebelde, força agressiva e destruidora, sujeitou-se à vontade do homem. E a água corre agora docemente pelas levadas».

 

Este cientista, com inegável talento poético, a dado parágrafo do texto em citação, chega a perguntar «Por que não admitir que a Madeira tenha uma alma e tenha um coração? Um coração em que se fundiram os corações de todos aqueles que durante cinco séculos por amor dela lutaram e sofreram; uma alma em que se fundiram as almas de justos e de pecadores, de nobres e de vilões, de escravos e de homens-livres, de todos aqueles que no decorrer de meio milénio, ou com o esforço rude dos seus braços, ou com a sua inteligência, a sua coragem, a sua fé, e irmanados por um amor sem fim a este palmo de terra, escreveram a mais bela epopeia agrícola de que se pode orgulhar um povo».

É nossa convicção que o poder transcendente de uma especial geografia terá justificado a índole prodigiosa dos madeirenses percursores, a qual, desde muito cedo, propagou-se de pais para filhos, depressa transformando-se em código genético. Depois, galgadas várias e multiplicadas as gerações, por razões que a História guarda, sobretudo porque o solo se foi apoucando, escasso para tantas camas, bocas e sonhos, muitos madeirenses tiveram de fazer-se ao mundo à procura de vida melhor. A diáspora passou a ser sina de muitos e os que tiveram de partir levaram na mala do coração um pouco da sua casa avoenga, da sua Madeira querida e, geralmente por mar, o espírito aventuroso a comandar, foram tentar continuá-la noutros lugares.

Acolhendo-nos noutro belíssimo texto da autoria de Fernando Dacosta (1945) [3], este, desde logo constata que «as periferias», onde se inclui a Madeira, «constituem plataformas de diferença, de criatividade; as grandes transformações surgem nelas, não nos núcleos – daí a vocação convivencial, universalista dos seus naturais» e, mais adiante, que uma ilha «é útero, local de concepção e de afirmação, de partida e de chegada». Linhas à frente, ao abordar mais em concreto a emigração portuguesa e, implicitamente a madeirense, o escritor refere que aqueles «que se verteram pelas sete partidas do mundo, onde reconstruíram bocados de terra (...) O campanário da aldeia, a música da infância estão em toda a parte – África, América, Oriente». No sentido inverso, conclui que «regressados, reconstruimos aqui o que amamos lá; o petisco de África, o requebro da América, o perfume do Oriente estão em todos os interiores da nossa melancolia, miscigenados que somos por coração, por pele, por sonho, por ludíbrio».

Este pêndulo, no seu movimento de ir e vir, de levar e trazer, também foi charrua. Muitas das plantas que hoje enriquecem os nossos campos agrícolas e quintais cultivados (a maioria das flores ditas exóticas, o abacateiro, a anoneira, o araçaleiro, a goiabeira e, entre tantas outras, mais que provavelmente a bananeira), já muito bem acomodadas à bondade do clima e à hospitalidade dos terrenos das ilhas da Madeira e do Porto Santo, devem-se aos nossos emigrantes que, de regresso breve ou definitivo à terra-mãe, as trouxeram consigo. Quando antes haviam zarpado, a maior fortuna que compunha a modesta bagagem, mais que uma provisão um seguro, tinha sido igualmente o melhor que a agricultura lhes dera, seja em alimento, seja em saudade.

Assim, os emigrantes madeirenses à medida que encurtavam o planeta, foram fazendo enorme a Madeira. Sempre num partir sem ir!

[1] in "Memórias da Casa de Pedra", Coleção "Terra à Vista", nº. 1, Ed. Arguim-Madeira, 2002
[2] in "Madeira – A Epopeia Rural", Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, 1954
[3] in "A Periferia de nós", "Cultura Madeirense – Temas e Problemas", Campo das Letras –Editores S.A., 2008

(texto a ser publicado na Revista Folclore/2015)


Paulo Santos
Diretor Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural

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