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Um puzzle de gente, um povo só!

«O que fez a espécie humana sobreviver não foi apenas a inteligência,
mas a nossa capacidade de produzir diversidade».
Mia Couto

Folclore Descartando o óbvio, o que fará com que um povo seja diferente de todos os outros e, sem deixar de o ser no que lhe é determinantemente distintivo, em simultâneo guarde em si uma maior ou menor soma de outras tantas diferenças exclusivas? Na comparação, apenas e aparentemente de grau menos intenso, visibilidade mais recatada, embora ainda assim tão importantes quanto as que se capturam com a rede de malha mais grosseira. Como se aquelas outras diferenças se tratassem dos detalhes de uma paisagem ímpar, das notas de uma sinfonia irrepetível. Ou seja, tudo o que podendo insinuar dissemelhança mais não represente do que cada uma de todas as pedras que dão forma e temperamento às paredes de uma casa original. Uma casa que, se bem que vinda de séculos atrás, mantém-se bem viva e que, só ali, naquela exata geografia, existe.

Suponha-se várias pessoas escolhidas ao acaso, isto é, sem qualquer preocupação de significância estatística, reunidas num mesmo local, a quem se submetesse a exame a questão colocada acima. Suponha-se também que pelo menos metade dos convocados correspondessem ao desafio. À parte as mais ou menos elaboradas reflexões, dissertações, lucubrações ou quaisquer outros exercícios similares a que se possa forçar o pensamento, neste campo de conjeturas, e com a liberdade toda que este concede, poder-se-á presumir, conquanto função do número e da singularidade dos cérebros em trabalho comum, virem à tona do texto dois factos.

O primeiro facto é adivinhar-se perante o problema pelo menos duas condutas diversas dos participantes: os de índole mais científica, provavelmente com leituras de sociologia ou antropologia, ou ambas, ficarem-se entrincheirados em convicções fortes e praticamente inabaláveis; os de espírito mais filosófico, provavelmente alunos duma escola cartesiana, voarem em frente, felizes nas asas de dúvidas mutáveis.

 

O segundo facto, dos dois troncos opinativos principais identificados, é aflorar uma noção comum a todos os intervenientes: explícita ou implicitamente soltarem ideias que vão incorporar-se no conceito de “diversidade cultural”.

Esta unanimidade possivelmente resultará não do conceito em si, mas da sua antítese. Certamente do medo que vem sendo ateado por um radicalismo monstruoso que ameaça todo o progresso civilizacional alcançado nos últimos milénios e, precisamente, totalmente avesso e desrespeitador da “diversidade cultural”.

Mas não se dê qualquer crédito a trogloditas das trevas, antes se atribuindo em exclusivo todo o mérito à UNESCO que, em 2001, adotou a Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural e à Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) que, em dezembro de 2002, instituiu esta celebração a 21 de maio, para todo o sempre.

Tendo a Declaração supra, naturalmente, uma ambição e preocupação global, regressemos ao foco com uma pergunta mais objetiva.

O que fará com que os madeirenses e os portosantenses, gente de um mesmo puzzle, formem um povo só, mas ainda assim diferentes entre si e dentro de si? São as tais diferenças de maior pormenor, que exigem uma maior atenção porque somente mais imersas. Como olhar para uma mão incomparável e não prestar a atenção devida às linhas que a tecem. Estas outras diferenças relacionam-se mormente com a tradição cultural, os usos e os costumes perpetuados pela memória de geração em geração, de que são exemplo os cantares e as danças.

Testemunhá-lo num mesmo espaço, e num curto intervalo de tempo, não mais do que um dia, fica ao alcance de uma romagem a Santana e (con)viver o Festival Regional de Folclore.

António Paulo Santos
Diretor Regional de Agricultura

 

(texto a ser publicado na revista “Bailar”, no âmbito do XXXII Festival Regional de Folclore)

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