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A polinização manual na anoneira

A anoneira é uma planta cujas flores são hermafroditas, o que significa que a mesma flor tem o sexo feminino e o masculino. No entanto, esta flor tem uma particularidade: quando o órgão feminino está recetivo, o masculino ainda não está funcional, ou seja, a flor da anoneira comporta-se como dicogâmica protogínica. A flor passa por várias fases de abertura: a pré-fêmea, fêmea e macho.

Fases de desenvolvimento da flor da anoneira:
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1- Flor pré-fêmea 
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2- Flor em estado fêmea 
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3- Flor em estado macho 

A abertura das flores é, de forma geral, sincronizada em todo o pomar, com a duração de 24 a 36h.

A primeira abertura é sempre no estado fêmea e, no período da tarde do dia seguinte, normalmente a partir das 15h, variando a hora de acordo com as condições de temperatura, humidade e luminosidade, passa ao estado masculino. Esta situação é um dos principais motivos da baixa produção na anoneira em determinadas condições de clima.

A floração da anoneira é escalonada, ou seja, o período de inflorescência, dependendo da altitude, variedade e técnica de poda, decorre aproximadamente durante quatro meses, em dois dos quais a floração é mais concentrada, o que permite que a polinização se realize ao longo deste período de floração, obtendo também uma produção escalonada.

Na Região Autónoma da Madeira (RAM), atendendo às condições climáticas predominantes no período primavera/verão, que é a altura da floração, e das variedades selecionadas, o potencial de autofecundação tem sido alto, dispensando a polinização manual. No entanto, devido às alterações climáticas dos últimos 10 anos e para garantir a produção e a sua rentabilidade, é conveniente que se comece a aplicar a técnica da polinização manual, o que implica que os pomares de anoneiras tenham de ser podados, de modo que sejam de porte baixo, não devendo ultrapassar os 2,5m de altura.

A técnica da polinização manual consiste na obtenção de pólen, que poderá ser de duas formas:

a) Recolher o pólen com um pincel no período da tarde (a partir das 15h), quando a maioria das flores está na fase de macho, mas não demasiado tarde, para prevenir a recolha anterior pelas abelhas. Colocar o pólen obtido num recipiente e conservar no frigorífico, a uma temperatura média de 7º a 8ºC. No dia seguinte, logo de manhã, proceder à polinização das flores que estão na fase de pré-fêmea e fêmea.

 

b ) Recolher as flores no estado fêmea. Ao selecioná-las, ter em atenção as que se encontram muito próximas (menos de 20 cm), de forma a deixar flores femininas para o próximo dia de polinização, evitando assim que estas fiquem muito próximas umas das outras. As flores doadoras de pólen devem ser acondicionadas num saco ou recipiente arejado, para evitar que as flores aqueçam e fermentem. Depois, devem ser espalhadas em cima de um papel, à sombra. No dia seguinte, quando estão no estado masculino, separar os estames do resto da flor e guardar num recipiente (por exemplo, rolo fotográfico). Pode ser feita uma diluição com pó talco, na proporção de 1:1.

Logo de manhã, o mais cedo possível, proceder à polinização das flores que estão na fase de desenvolvimento pré-fêmea e fêmea, momento em que a parte feminina está mais recetiva. Separar, com a mão esquerda, as pétalas, de modo a facilitar a entrada do pincel, com o qual se faz um movimento suave sobre o gineceu. O pincel deve ser muito suave, ou pode também ser utilizada uma pequena “bomba”, de modo a não ferir os ovários da flor.

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Polinização da flor da anoneira:
à esquerda com pincel e, à direita, com bomba
 
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Polinização da flor da anoneira com bomba 

A forma de recolher pólen da alínea a), comparativamente à da alínea b), tem a desvantagem da viabilidade/vida útil do pólen ser relativamente inferior e, como tal, diminui a eficiência da polinização.

A polinização manual não deve ser realizada com vento forte, chuva, temperatura elevada ou com humidade relativa baixa.

Outros aspetos a ter em consideração na polinização manual é que as flores polinizadas devem distanciar-se entre si, no mínimo, 20cm no mesmo ramo. A atenção ao vigor do ramo é outro facto a considerar, pois a regra deve ser em média 20 folhas para um fruto. Por exemplo, para uma árvore de 8 a 10 anos, dever-se á efetuar uma polinização de 200 a 250 flores; para uma árvore com idade superior a 10 anos, de 250 a 450 flores. Uma sugestão para saber quais as que já foram polinizadas, é quebrar uma das pétalas.

A polinização vai garantir frutos maiores e mais uniformes, produção escalonada ou concentrada (dependendo do interesse do produtor em relação ao mercado) e uma maior produtividade, ou seja, o custo da mão-de-obra vai ser compensado pelo rendimento. Como na polinização manual a produção é alta e regular, é fundamental que o produtor tenha mais atenção às podas, regas e fertilizações, caso contrário, as plantas poder-se-ão ressentir, ficando debilitadas.

Um aspeto que importa ainda a mencionar é que, com a polinização manual, o índice de sementes é relativamente superior, comparativamente a um fruto de autopolinização.


Aurélia Sena
Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural

(Texto publicado originalmente no Almanaque PEF/2023)

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