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A utilização de orquídeas como método de combate ao mosquito Aedes aegypti

a utilizacao de orquideas como metodo de combate ao mosquito Aedes egypti DICAs Liparis viridiflora
Liparis viridiflora
Os mosquitos fazem parte de um conjunto de invertebrados que todos os anos fazem adoecer e inclusive matam vários milhares de pessoas por todo o mundo. São organismos pequenos, facilmente transportáveis, mesmo inconscientemente, e reproduzem-se de um modo rápido. São encontrados um pouco por todo o mundo, mas é nas regiões tropicais e subtropicais que fazem mais jus ao seu potencial destrutivo. Naturalmente, as alterações climáticas exacerbam esta problemática, criando nichos ecológicos onde algumas espécies, potencialmente perigosas, conseguem subsistir onde antes não existiam.


Com várias espécies nativas de mosquitos na Região Autónoma da Madeira, a atenção dos residentes para a causa nunca foi tanta como com o surgimento do Aedes aegypti. Um pequeno mosquito, de atividade diurna e voo rasante ao chão e com as inconfundíveis patas às listas pretas e brancas. Na senda de um possível regresso destes animais, segundo dados recentes, impera relançar ideias e discussões para uma luta mais eficaz.

Ainda que o combate tenha sido e seja intenso, e não tenham sido registados novos casos de dengue na Região, este tipo de situações demonstra o potencial perigo de um crescimento populacional ou importação de doenças transmitidas por este mosquito.

Campanhas de prevenção, hábitos sanitários, controle de ninhos, repelentes e inseticidas fizeram a diferença num combate conjunto a este flagelo. Não obstante tudo isto, o combate biológico orienta-se para métodos inovadores, onde se compreende e se estuda a natureza dos organismos, a fim de percebemos como os controlar melhor, minimizando os riscos associados à nossa saúde.

Insetos auxiliares, por exemplo, provaram ser armas de arremesso e fortemente recomendáveis em diferentes zonas do Globo. Existem, aliás, produtores e vendedores especializados neste tipo de mercado. Ainda assim, há que perceber que a importação de qualquer ser vivo acarreta os seus riscos, especialmente numa ilha, mas a inação acarreta, por sua vez e também, riscos, ainda que diferentes.

Essa compreensão passará, necessariamente, pelo estudo do ciclo de vida e de reprodução desses insetos. Algo que é necessário que os leitores saibam é que, pelo menos nesta espécie, apenas as fêmeas são hematófagas, isto é, apenas os indivíduos do sexo feminino picam outros animais para se alimentar de sangue. Uma espécie de bomba de nutrientes para poderem desenvolver os seus ovos. Por sua vez, os machos, e à semelhança de imensos outros insetos, são nectarívoros, procurando pelo néctar em pequenas flores.

a utilizacao de orquideas como metodo de combate ao mosquito Aedes egypti DICAs Dendrochilum cobbianum
Dendrochilum cobbianum
E é precisamente nesse ponto que pretendo que se foque a nossa atenção.
 

Ao longo de vários anos de cultivo de diferentes espécies de orquídeas, deparei-me com algumas situações curiosas. Os machos desta espécie de mosquito parecem ter um interesse significativo em três a quatro espécies de orquídeas, nomeadamente Liparis viridiflora, Dendrochilum filiforme, Dendrochilum cobbianum e Dendrochilum magnum. Todas elas provenientes do sudeste asiático, dependentes de mosquitos nativos para a sua polinização e todas elas com um perfume fermentado, algo semelhante a fruta que passou o ponto de demasiado madura.

a utilizacao de orquideas como metodo de combate ao mosquito Aedes egypti DICAs Dendrochilum magnum
Dendrochilum magnum

A época de floração destas plantas coincide com a época mais quente, o que, por sua vez, foi de uma grande ajuda para este pequeno estudo, pois coincide, também, com a época de maior atividade deste mosquito. A iniciar a época, o Dendrochilum filiforme a florir no início de agosto, seguindo-se o Dendrochilum magnum e o Dendrochilum cobbianum entre fim de setembro e início de outubro e finalmente a Liparis viridiflava, a florir a meados de novembro.

A experiência foi feita através da contagem bruta de mosquitos da espécie em questão que pousavam, com efeito, nas hastes das orquídeas supramencionadas, não se verificando tratarem-se, ou não, dos mesmos indivíduos a pousar uma segunda vez. Para cada uma das espécies, a experiência foi feita durante 30 minutos, entre as 10h30 e as 11h00 da manhã. A observação produziu a seguinte tabela de dados:

a utilizacao de orquideas como metodo de combate ao mosquito Aedes egypti DICAs TABELA Os números são, de facto, surpreendentes, mas não podem ser analisados sem ter em conta alguns aspetos, desde a presença ou não de vento, se houve ou não um dia de chuva ou ainda, fortemente impactante, o volume de flores, uma vez que produzirá uma onda de aroma mais intensa atraindo mais facilmente, lá está, os mosquitos da zona.

Há que mencionar também que a detenção destas espécies em nada ajuda à subsistência e permanência deste mosquito, uma vez que estas espécies não produzem néctar, ludibriando, através de uma “armadilha” aromática, os insetos que as polinizam sem recompensa.

Enfim, dados mais ou menos sensíveis, mas suficientes para demonstrar que talvez não seja uma má ideia, de todo, a captação desses aromas, a sua sintetização e consecutiva agregação a armadilhas colantes. Conseguindo apanhar um elevado número de machos, reduzimos o número de fêmeas que procriarão, diminuindo, ainda mais, os níveis populacionais e tudo isto, há que o dizer, sem recurso a inseticidas.

O combate biológico não passa somente pela introdução de doenças, parasitas ou predadores, mas poderá passar também pelo aprofundado conhecimento da vida destes animais, desconstruindo o seu ciclo de reprodução com o mínimo de alterações e riscos associados.

Pedro Spínola

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