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Sidra, o néctar dourado (parte 2)

Para que se detenha um melhor conhecimento do mercado europeu das sidras, do qual provirá, via os fluxos tradicionais do turismo, um dos públicos a eleger para as obtidas na Madeira, abordaremos com mais pormenor os casos do Reino Unido, França, Espanha e Alemanha. É de referir que os dados estatísticos utilizados têm, no pormenor considerado, a atualização possível dada a diversidade de fontes (credíveis) consultadas e da maior ou menor dificuldade de lhes aceder, não deixando de refletir as principais linhas de força/tendências até ao presente.

Como se constata pelos dados da AICV [Parte 1 deste artigo], o Reino Unido (RU) é, a larga distância, o maior produtor de sidras da Europa e também mundial. A produção de sidras neste território é ancestral, como o conhecimento sobre a sua tecnologia muito antigo, como se pode atestar pela publicação, em 1676, do “Vinetum Brittanicum”, um tratado sobre a produção e o processamento de maçãs da autoria de John Worlidge.

sidra2 DICAs 1 De acordo com a The National Association of Cider Makers (NACM), cuja fundação remonta a 1920, em 2008 existiam 480 fabricantes de sidras. Esta mesma organização constata que 57% da maçã produzida no RU destina-se à indústria sidreira (agroindústria que gera 1.500 empregos diretos), o que corresponde a uma captação de uma média de 250.000 toneladas/ano deste fruto (80% de variedades ditas de “sidra” e 20% de variedades ditas de “mesa”).

As principais regiões produtoras de sidra são os condados de Devon, Somerset e Herefordshire. Os dados de 2012 do Department for Environment Food & Rural Affairs indicavam que a cultura da macieira ocupava 14.468 hectares, 49,6 % dos quais (7.178 hectares) dedicados a variedades específicas para produção de sidras. Entre 2009 e aquele ano foi, aliás, o único grupo de variedades de macieiras que aumentou de implantação (+ 8,4%).

Gabe Cook, consultor credenciado na área das sidras, em entrevista de 2018 ao Independent, referia que a sidra é “efetivamente o nosso vinho indígena” e que “exatamente como os vinhos, a escolha das variedades é crucial para a sidra resultante. As variedades “raposinha” e “focinho castanho”, por exemplo, conferem particularidades às sidras obtidas (matizes de giz) que as assemelham ao sauvignon blanc e ao malbec”. Este especialista, na entrevista àquele diário digital, considerou como as 10 melhores sidras britânicas: Apple County Cider Co, Vilberie Medium Dry, 6%; Hallets Real Cider, 6%; Oliver’s Stoke Red Fine Cider Still, Season 2015, 5.5%; Fowey Valley Castledore, Medium Dry Cider, 6.5%; Westons Wyld Wood Organic, 6%; Oldfields Worcestershire Cider Medium Dry, 4.8%; Kent Cider Company Blend 23, 6%; Thatcher’s Vintage Cider, 7.4%; Jack Ratt Scrumpy Cider, 6%: e a Severn Cider, Sweet Sparkling, 5.8%.

No RU o mercado da sidra vale cerca de 3 mil milhões de libras (3,76 mil milhões de euros), com este produto a representar quase 8% do volume total de todas as tipologias de bebidas alcoólicas consumidas naquele grupo de países britânicos. Ainda no mesmo relatório da Her Majesty’s Revenue and Costums (HMRC), este organismo não-governamental, em auditoria realizada em 2010, constatou que o canal “off trade” (canal alimentar) absorveu 59% da bebida e dos 41% canalizados pelo canal “on trade” (canal HoReCa), 25% foi servida a copo e 16% em garrafa.

Já quanto a França, a sidra é principalmente obtida na Normandia e na Bretanha, não deixando de ter importância no Vale do Loire e na Picardia, ou seja, nas regiões onde a vinha ou não existe ou assume menor expressão. O Vale do Rance é também famoso pelas suas variedades de maçãs como a "Chaperonnais", "Jeanne Renard", "Marie Menard" e a "Doux Eveque", as quais conferem às sidras uma qualidade especial.

De acordo com a France AgriMer, organismo público que faz a ligação entre o Estado francês e as fileiras agroalimentares, a produção de maçãs para a fileira sidrícola envolve à volta de 10.000 produtores, que abastecem o setor com cerca de 250.000 toneladas de frutos (8.500 hectares de cultura). Em 2009, o destino daquela produção foi o seguinte: 65% para sidra propriamente dita (1,1 milhões de hectolitros), 20% para Pommeau (um vinho licoroso feito com sidra e aguardente de sidra) e para Calvados (uma aguardente de sidra que é um produto AOC – Appellation d’Origine Contrôlée, a exemplo do Cognac, Armagnac e Champagne) e 15% para sumo de maçã fresco ou concentrado e vinagre.

Quanto à sidra propriamente dita, ainda segundo a France AgriMer, esta é controlada por duas cooperativas que são responsáveis por 90% da produção. Existem igualmente cerca de meia centena de unidades artesanais e cerca de 500 produtores transformadores, sobretudo de sidras AOC e de Calvados.

O consumo de sidra em França é muito regionalizado, coincidindo com as próprias principais áreas produtoras do noroeste do país, se bem que se alargando à região parisiense. Em 2006, esta área geográfica, se envolvia 47% dos lares franceses, dinamizava 61% das compras da bebida. Por outro lado, o seu usufruto ainda é caracterizado por uma forte sazonalidade: nas celebrações da "Épiphanie" (Dia de Reis), associada à doçaria da época, e do "Chandeleur" (40 dias após o Natal – Nossa Senhora das Candeias), tipicamente a acompanhar crepes, tudo eventos que ocorrem no primeiro trimestre do ano, como no verão. Estes picos concentram, em média, cerca de 40% do consumo da sidra.

O consumo de sidra não ultrapassará os 2 litros/habitante/ano e, entre 2003 e 2006 (dados da Viniflhor - Office national interprofessionnel des fruits, des légumes, des vins et de l'horticulture, organismo ligado à AgriMer), o índice de consumo mais elevado, isto é, superior a 100, situava-se na faixa dos 35-65 anos.

 

Em 2013, em avaliação da Nielsen, o canal alimentar, que comercializa 60% do volume de sidras, canalizou 453.000 hl da bebida, com um valor de 102,7 milhões de euros. Ainda segundo esta empresa especialista em estudos de mercado, o mercado francês da sidra valerá cerca de 200 milhões de euros.

Na Grande Distribuição, 40% das sidras são marcas dos próprios distribuidores, seguindo-se-lhes as marcas Loic Raison e Ecusson, ambas da cooperativa Agrial, com 31%, e mais atrás, com 7%, a Kerisac, e uma quota de 6% a Val de Rance, pertença também de uma cooperativa, a Les Celliers Associés.

Em França, as sidras são qualificadas de “doux”, “demi sec” e “brut”, com grau, decrescente em doçura, e crescente quanto ao teor alcoólico.

A título de curiosidade, na Bretanha, a sidra é servida num “bolée”, um copo tradicional feito de arenito.

Continuando o nosso roteiro pelos principais produtores europeus de sidras, centremo-nos agora em Espanha.

Neste país, a produção de sidra está circunscrita às regiões da Galiza, das Astúrias, do País Basco e norte de Navarra, assim como a várias comarcas da Cantábria e de Castela e Leão.

Cerca de 80% da sidra espanhola, que se situa na ordem dos 700.000 a 750.000 hl (com um valor económico próximo dos 80 milhões de euros), provém das Astúrias, a qual é “alimentada” por 10.234 hectares de macieiras, dispersas por 56.417 explorações (Instituto de Recursos Naturales y Ordenación del Territorio da Universidade de Oviedo – dados de 2010). Em geral, a produção espanhola de maçãs para sidra é muito alternante só chegando a cobrir 80 a 90% das necessidades nos anos da safra mais elevada. Pelo contrário, nos anos de contraciclo, não satisfaz mais do que 30 a 40% das necessidades, o que conduz a que tenham de ser importadas maçãs (e mosto de maçãs) de outros países, como de França, Inglaterra e da República Checa.

É de notar que do suco da maçã, também é produzida a «manzanada», a qual, na sua definição legal, é a bebida resultante da fermentação alcoólica parcial do fruto fresco ou do seu mosto, sem adição de açúcares, e cuja graduação alcoólica adquirida é inferior a 2,5º e a total superior a 5.º.

De referir que é igualmente frequente neste país produtor de sidras, conservar mosto de uma campanha para a outra, numa média de 6% do suco total obtido.

O País Basco é a segunda maior região sidreira, com um volume anual médio de 10.000 hectolitros, na base de 70 produtores. A sidra, que nesta região é designada por “sagardoa”, é maioritariamente destinada ao autoabastecimento, já que faz parte dos hábitos de consumo dos bascos beberem-na diretamente da pipa (“kupela”) ou utilizarem-na em acompanhamento das refeições.

Existem dois principais tipos de empresas produtoras de sidra: os lagares tradicionais, onde o volume de produção alcança até 80 mil litros/ano e que operam com mão-de-obra familiar, e as agroindústrias sidreiras, com uma produção anual superior a um milhão de litros. Em 2012, as dez maiores empresas, oito delas instaladas nas Astúrias, concentravam 61% da faturação do setor. Estas empresas contam, em média, com oito trabalhadores e dedicam-se ao processamento de maçãs cerca de três meses por ano, entre outubro e dezembro, período da colheita do fruto. No restante período do ano, estas agroindústrias ocupam-se das fases da maturação, engarrafamento e distribuição da bebida com redução de pelo menos metade da mão-de-obra da fase inicial. Os lagares, por seu lado, ocupam duas a três pessoas durante todo o ano, em geral membros da própria família.

Apenas 1/3 da produção de sidra anual é comercializada através de circuitos formais. Na verdade, considerando o ano mais recente disponível, 2011, segundo a Alimarket, empresa de estudos mercadológicos, citada pela Mercasa, entidade pública da administração do Estado espanhol que, entre outras missões, gere a rede de mercados abastecedores do país, naquele ano foram comercializadas 255.000 hl de sidras com um valor de aproximadamente 50 milhões de euros, 59% destinada ao consumo em ambiente doméstico e 41% à rede HoReCa.

sidra2 DICAs 2 O consumo de sidra fora do lar, está concentrado, como seria previsível, nas principais áreas de produção, onde o consumo coletivo assume uma grande tradicionalidade. Nos bares típicos, que ostentam o nome de “sidrerias”, para a degustação, a bebida é escanceada e atirada de alto para o copo para que “exploda”, e na quantidade suficiente para que se beba de um trago.

Em 2011, com base nas mesmas fontes, as exportações de sidra atingiram os 5 milhões de euros, tendo como principal destino Portugal (33% e um valor de 1,7 milhões de euros), seguindo-se-lhe os Estados Unidos da América (22%), e vários países da América do Sul, com Cuba a ocupar um lugar cimeiro (9%). Mas se exporta, a Espanha também é importadora de sidras, dirigidas sobretudo para os grandes núcleos turísticos de Canárias, da Catalunha e de Valência. Em 2011, as importações cifraram-se em quase 14 milhões de euros, provenientes dominantemente da Irlanda (27%), RU (23%) e Holanda (15%).

Na compra para consumo doméstico, ainda em 2011, o contributo dos supermercados foi de 63,5%, seguindo-se os hipermercados com 27%, enquanto as lojas especializadas não atingiram os 2%.


Direção Regional de Agricultura
e Desenvolvimento Rural

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