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A cerejeira

cerejeira 2 A cerejeira é natural do nordeste asiático e surge no seu estado selvagem em locais tão díspares como a Rússia e a Suécia, passando pelo Irão e Itália, disseminada pelas aves nas suas cíclicas migrações. Da família das Rosaceae, todas as variedades de cereja existentes têm origem em duas espécies base, a doce (Prunus avium L.), que é a largamente predominante na Madeira, e a Prunus cerasus L., mais ácida, onde se inclui a ginja.

Na pré-história já se extrairia sumo da cereja, mas a referência escrita mais antiga conhecida que lhe é feita deve-se a Teofrasto (372-285 a.C.), filósofo grego sucessor de Aristóteles no Liceu, num dos seus tratados botânicos («Historia plantarum» e «De causis plantarum»), considerados a mais importante contribuição para aquela ciência de toda a antiguidade até ao Renascimento. Mas esta deliciosa fruta só adquire maior relevância através do general Lúcio Licínio (118-56 a.C.), que conheceu a planta numa cidade do Mar Negro no decurso de uma campanha militar e que a levou para Itália, elevando a cereja a alimento nobre dos seus banquetes e coroando-se mesmo com elas a cada vitória. Durante a Idade Média foram sendo desenvolvidas diferentes variedades mais ou menos doces ou ácidas, e no século XVI já estavam bem divulgadas na Alemanha, França e Inglaterra, facto este que conduziu a que, atualmente, a Europa represente quase metade da produção mundial do fruto.

 

Mas será o povo japonês o que dedica um verdadeiro culto à cerejeira, principalmente à sua flor, ali chamada sakura, e que chegou, pese a sua graciosidade e fragilidade, a ser o símbolo dos samurais. Se foi no século VIII, que um dos micados da época ordenou o seu cultivo em jardins e pomares, ainda hoje, muitos nipónicos todos os anos percorrem o país para acompanharem o efémero e belíssimo espetáculo do florir das cerejeiras.

No século XIX, o botânico inglês Thomas Lowe (1802-1874), na obra «A manual flora of Madeira and the adjacent Islands of Porto Santo and the Desertas», refere e descreve várias espécies de cerejeira existentes na ilha da Madeira. E, como salienta Paulo Perestrello da Câmara na sua “Breve Notícia sobre a Ilha da Madeira”, de 1841, a cerejeira ali pedia «terras mais frias e húmidas». Mas já no século XVIII seria cultivada, pois Eduardo C. N. Pereira nas «Ilhas de Zargo» refere que «(…) a produção de cereja preta é em diminuta quantidade, por ter sido proibida a sua cultura em 1788, em vista de, até esta data, se haver aproveitado este fruto na coloração de vinho». Este mesmo autor mais refere que «a intensificação desta cultura no Estreito de Câmara de Lobos superou a das demais regiões produtoras do mesmo fruto e criou uma ambiência de tanto interesse e entusiasmo que, todos os anos, desde 1952, num dos domingos de Junho, ocorre àquela freguesia uma multidão de milhares de forasteiros e romarias de diferentes povoações da ilha para celebrarem a Festa das Cerejas com todas as características de um autêntico arraial». Note-se que a Festa da Cereja, que entretanto perdeu o plural, deverá manter-se na mesma localização, mas atualmente na freguesia do Jardim da Serra, pois esta resultou da separação da do Estreito de Câmara de Lobos em 1996.

Ricardo Costa
Direção Regional de Agricultura

 

 

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