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A urgência do inventário e preservação dos clones mais antigos de Cymbidium

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Cymbidium Bennet-Poei

A Madeira possui todo o material necessário para ser um exemplo europeu e mesmo mundial no inventário e preservação dos clones mais antigos de Cymbidium. Possui, ainda, as plantas, laboratórios de referência na multiplicação vegetativa e entidades governativas sensibilizadas para a veemência deste tema, faltando-nos, apenas, o admitir da urgência e dar o primeiro passo.

No entanto, as dinâmicas comerciais, a emigração e o abandono dos campos criaram, nas últimas décadas, uma lenta, mas forte mudança no paradigma da Madeira enquanto “ilha-jardim”. Indissociável das alterações climáticas, descuido e desdém, esta mudança terá que ser, antes de mais, admitida ao ponto de se perceber a urgência que é recuperar a mais profunda e antiga conotação da Região Autónoma da Madeira.

Orgulho de muitos madeirenses, os seus jardins, “alegretes” ou qualquer planta que adornasse um quintal ou casa compunha, num conjunto, um quadro cultural, nunca apenas de interesse turístico, e que ajuda a definir a “madeirensidade”, numa ligação secular ao jardim e às plantas. É por essa mesma questão que este assunto deverá ser, sempre, uma prioridade das entidades responsáveis e jamais vista apenas como uma atividade comercial e/ou ornamental. Trata-se de salvaguardar um percurso, uma história, uma coleção, uma paisagem, uma identidade.

Tudo isto para nos conduzir à riqueza, em eminente perigo, dos Cymbidium na Madeira. Longe de serem o foco da atenção dos madeirenses, as “orquídeas”, como são localmente conhecidos possuem, na Madeira, uma riqueza de extraordinário tamanho. De um modo trágico, a preferência por híbridos recentes, comerciais, de flor e haste maior e mais redonda levou ao abandono e eliminação de espécies e variedades antigas, destruindo todo um património genético, quando pelo resto do mundo se investe, luta e investiga.

O leitor estará já ciente da forma como muitas das espécies mais raras, aqui disseminadas, chegaram à Madeira através dos portos da Região, já desde os tempos das explorações científicas e que continuou, durante décadas, até aos tempos dos cônsules, aristocratas e magnatas que importavam e trocavam plantas de todo o mundo.

Sem métodos de reprodução laboratorial, a única forma de aumentar o número de vasos de Cymbidium, à data, seria por separação física da planta, basicamente criando clones das plantas originais, clones esses, hoje em dia, das mesmas plantas que chegaram à Madeira há dezenas de anos. Plantas essas, reitero, cuja população selvagem poderá estar já extinta devido à recolha e venda ilegal de plantas. Falamos, por exemplo, das duas espécies mais emblemáticas na região, o Cymbidium lowianum e o Cymbidium tracyanum.

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Cymbidium lowianum
 
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Cymbidium tracyanum

Isto para não falar da abismal falta de cuidados fitossanitários que os ameaça, além do abandono, per si, estas e todas as outras plantas na Região. O Vírus do Mosaico do Cymbidium e o Vírus dos Anéis do Odontoglossum são duas enfermidades intratáveis e que comprometem a viabilidade dos já raros e valiosos espécimes. A utilização do mesmo instrumento de corte aquando do reenvasamento, sem esterilização entre cada planta, está na origem deste problema que deverá ser imediatamente minimizado e travado.

Voltando a nossa atenção para os híbridos, a Madeira foi palco de algumas das mais antigas experiências de hibridação de Cymbidium e casa, até hoje, para muitos outros. Cymbidium pauwelsii (1911), Cymbidium Bennet-Poei (1903) são apenas dois pequenos exemplos disso.

Relativamente comuns pelas zonas mais rurais da ilha, onde a falta de dinheiro nas famílias impediu a sua substituição por outros mais recentes e complexos, é precisamente assim que se vê a urgência da inventariação destas plantas, eventual multiplicação por meristema e por sementeira, enfim, uma catalogação e cuidado que deverá envolver diversas entidades, mesmo internacionais, em confluência com universidades dos locais de origem dessas mesmas plantas.

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 Cymbidium pauwelsii

 


Pedro Spínola

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