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Preparar a floração dos Cymbidium

Provavelmente um dos mais icónicos géneros botânicos em todo o mundo e também aquele a que mais se associa o termo “orquídea” na Madeira, os Cymbidium, pelo seu exotismo, multiplicidade de híbridos, altura e porte das hastes e flores e respetiva durabilidade são uma das principais escolhas dos portugueses.

Conhecidas em Portugal continental por “orquídea de exterior” pelo facto de tolerarem temperaturas bem mais baixas do que a maioria das outras orquídeas ornamentais, este género é todo ele oriundo da Ásia, com várias espécies que habitam diversos tipos de clima e habitat. Curiosamente, e ao contrário daquilo pelo qual são conhecidos, a maioria dos Cymbidium é epífita e não terrestre. O que acontece normalmente é que, por vezes, quando cruzamos alguma espécie terrestre com outra espécie epífita, o híbrido resultante terá um maior leque de tolerância a substratos, sendo possivelmente mais fácil cultivá-lo como terrestre, tendo em conta a nossa cultura botânica maioritariamente de jardim.

Cymbidium aloifolium  
Cymbidium aloifolium

Na Madeira encontramos, como herança dos navegadores europeus, uma coleção interessante de resquícios botânicos, com algumas espécies presentes como o Cymbidium tracyanum e Cymbidium lowianum, de invernos frios, ou ainda o Cymbidium aloifolium, esta uma espécie tropical.

Ao mesmo tempo surgem, um pouco por todo a ilha, vários híbridos primários e outros complexos, mas extremamente antigos e que não surgem facilmente em nenhuma outra zona do mundo, relíquias de botânicos e de cultivadores europeus, verdadeiras joias pela sua raridade em coleções contemporâneas e que são muitas vezes descurados em prol dos exuberantes e trabalhados híbridos atuais.

Não obstante a fama que estas orquídeas têm na Região, existem vários preconceitos que têm impedido um maior sucesso na floração deste género, especialmente na costa sul.

O grosso dos híbridos atuais e mesmo algumas das espécies de Cymbidium precisam de invernos frios, preferencialmente mais secos, para florir corretamente. Provenientes de regiões com invernos bem marcados e normalmente mais secos, o crescimento destas plantas dar-se-á maioritariamente durante o verão, pausando durante o outono, quando começam a surgir as hastes que brotam da base do pseudobolbo, preparando-se para florir na primavera.

Ora, durante esta fase de pseudodormência, em que a planta não processa a água e nutrientes de uma forma exaustiva, o excesso de chuva, bem mais comum durante o nosso inverno, altura em que não precisam dela, proliferarão os fungos e as bactérias, dizimando as plantas.

Requerendo luz intensa, mas raramente sol direto, novamente um preconceito tido para os Cymbidium, é importante nunca tapar os pseudobolbos. Tratados erroneamente como bolbos subterrâneos, estas estruturas têm de estar à superfície, apenas com as raízes no substrato, que deve ser uma mistura de casca de pinheiro, leca e possivelmente perlite ou areão vulcânico.

 

É essa luz que deverá tocar nos pseudobolbos e que deve ser mais intensa de inverno, juntamente com uma descida acentuada da temperatura, que induzirá uma mudança hormonal na planta, permitindo a transformação de uma gema numa haste. Neste momento, a rega deverá ser bem mais espaçada e as plantas que apanhem excesso de chuva, especialmente na costa norte, poderão ser resguardadas num alpendre e a adubação completamente cessada e só deverá ser retomada, preferencialmente, após a floração.

Cymbidium canaliculatum  
Cymbidium canaliculatum

De forma a assegurar uma maturação correta da haste, estes princípios deverão ser assegurados. A colocação de tutores é facultativa. Existem várias espécies e híbridos com floração arqueada ou pendente e é importante respeitar esses hábitos, colocando as plantas em parapeitos, prateleiras ou varandas. Hastes que cresçam sem esses tutores desenvolvem estruturas mais resistentes e capazes de tolerar vento. Novamente aqui, caso se opte pela sua utilização, a escolha do material e dos arames deverá ser criteriosa, de modo a ferir a planta o menos possível.

Nunca é demais reforçar a necessidade de esterilizar qualquer equipamento de corte ou poda entre plantas. As populações de Cymbidium mais antigos da Madeira estão completamente dizimadas pelo vírus do mosaico do Cymbidium, localmente conhecido como “doença preta”. Retirando gradualmente vigor à planta, é transmissível e poderá arruinar toda uma coleção.

Dito isto, e de forma a potenciar as capacidades comerciais deste género, uma excelente flor de corte na Região, é imperioso trabalhar em conjunto com unidades universitárias e laboratórios próprios para desenvolver híbridos novos, patenteá-los e criá-los em excelência, preferencialmente variedades que consigam florescer em condições mais quentes, sem comprometer a durabilidade da flor.

Cymbidium Sweet Lime hibrido Cymbidium madidum
Cymbidium Sweet Lime
híbrido Cymbidium madidum

Existem várias espécies tropicais belíssimas, a exemplo do Cymbidium madidum, do Cymbidium aloifolium ou ainda do Cymbidium canaliculatum, que poderão ser facilmente cultivados em cotas inferiores e que poderão ser utilizados na potencialização da produção regional deste género a nível comercial.

Entretanto, restará referir que, na costa sul, os melhores resultados com híbridos de Cymbidium poderão ser atingidos em cotas superiores aos 300m de altitude e acima dos 100m na costa norte.

Para qualquer entusiasta, existem diversas espécies desta género no mercado e para as quais, atendidas as recomendações aqui deixadas, poder-se-ão atingir florações exuberantes com o mínimo de esforço e problemas.

 

Pedro Spínola

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