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“Sapatinhos especiais” – guia de cuidados dos diferentes tipos de sapatinhos na RAM

Paphiopedilum armeniacum  
 Paphiopedilum armeniacum
  Paphiopedilum micranthum
 Paphiopedilum micranthum
Paphiopedilum bellatulum
 Paphiopedilum bellatulum

O arquipélago da Madeira, ao abrigo da sua localização geográfica e orografia especial possui, ao longo da sua extensão territorial, um elevado número de microclimas muito próprios. Aliado a isso, as temperaturas amenas registadas ao longo de todo o ano permitiram, ao longo dos séculos, a adaptação de muitas plantas tropicais, mediterrânicas e outras às diferentes condições encontradas.

Um dos géneros mais facilmente reconhecíveis pela dissonância em relação aos restantes e pela marcada presença de uma das suas espécies na região é o género Paphiopedilum, comummente apelidado de “sapatinhos”. Apesar de o “sapatinho do Natal”, Paphiopedilum insigne estar largamente difundido por toda a Ilha, capaz de tolerar uma série de condições distintas, existem muitas outras variedades, híbridos e espécies no mercado, cada vez mais presentes no imaginário e lares das pessoas.

Todo o género é oriundo da Ásia, especialmente do sudeste asiático, onde se podem encontrar como epífitos, litófitos ou ainda como terrestres ou pseudo-terrestres na maior parte dos casos. Este pequeno acerto terá uma grande importância quando nos debruçarmos sobre as razões do insucesso de cultivo de alguns menos comuns sapatinhos.

A grande maioria das espécies não prefere condições soalheiras, descobrindo-os a habitar precipícios, ravinas, encostas e margens de ribeiros, rios ou sobre grandes tapadas de bambus e outras plantas subtropicais. Isto é particularmente verdade para os “sapatinhos” de folha maculada, ou seja, aqueles que possuem as folhas matizadas, preferindo muito mais sombra que os de folha sem padrão.

Como em todos os casos, a própria anatomia das plantas dá-nos pistas sobre o seu cultivo.

Não possuindo pseudobolbos, será comum pensar que os sapatinhos precisarão de mais água. De facto, não os tendo, a humidade relativa e atmosférica é deveras importante, mas existem outros fatores que pesam na deliberação deste caso, a exemplo do tamanho, grossura e formato das suas raízes. Poder-se-á dizer que este género possui um curto sistema radicular, raramente preenchendo um vaso. Isto torna-os particularmente suscetíveis ao apodrecimento na presença de demasiada humidade. Além disso, não possuem velame e são revestidas de umas pilosidades ao longo de toda a raiz. Regra geral, quanto mais grossas e, neste caso, peludas forem as raízes, mais arejado e graúdo deverá ser o substrato.

Obviamente, a opção por um substrato mais pesado e compacto penderá pela disponibilidade de rega do entusiasta, mas, no exterior ou quando é impossível controlar automaticamente as condições de cultivo, esta é uma exigência necessária para estes sapatinhos mais difíceis.

Ao baixo requisito de luz forte juntamos agora a necessidade de um substrato muito arejado. O ideal será plantá-los somente em musgo vivo, capaz de secar rapidamente entre regas ou de usar uma mistura de casca de pinheiro, argila expandida ou areão graúdo e ainda pedaços de cortiça. A isto junta-se o conselho de os cultivar em floreira, ou seja, em vasos baixos, incapazes de reter demasiada humidade. Além disso, é um erro utilizar vasos grandes na tentativa de induzir o seu crescimento. Os sapatinhos gostam de algum stress radicular e o ideal será que as pontas das folhas transbordem o exterior do vaso. A metade inferior do recipiente poderá ser preenchida com pedra, somente, favorecendo a drenagem da água.

Em alternativa, poderão ser cultivados em cestos pendurados, cuidadosamente forrados já que as suas raízes procuram o escuro, ao contrário da maioria das restantes orquídeas ornamentais.

Ainda assim, é importante não cobrir demasiado a planta ao renovar o substrato ou ao adicionar “terra” por cima das plantas. Esta é uma prática normalmente nefasta para os sapatinhos que favorecerá a proliferação de fungos junto às gemas e aos novos rebentos. Isto é particularmente mais verdade quando se opte por uma terra pesada.

 
Paphiopedilum niveum  
 Paphiopedilum niveum
  Paphiopedilum sanderianum
 Paphiopedilum sanderianum
Paphiopedilum rothschildianum
Paphiopedilum rothschildianum

Alguns especialistas referem ainda que será benéfico mudar o substrato destas plantas duas vezes ao ano. Isso poder-se-á explicar pela grande sensibilidade das raízes, podendo assim fazer vistorias frequentes ao seu estado de saúde. No entanto, atingida a excelência de cultivo, esta medida nem sempre se vê necessária.

A maioria dos sapatinhos não é de crescimento vigoroso ou rápido e poucas vezes produzem mais do que um rebento ao mesmo tempo, em plantas jovens e quando falamos de espécies botânicas.

Será importante acrescentar que algumas espécies, ainda que menos comuns e à semelhança de alguns Phragmipedium, preferem condições ligeiramente alcalinas onde a existência de demasiada matéria orgânica no substrato pode ser negativa. Nestes casos, a adição de uma fonte de cálcio é muito importante. Como exemplo, temos o nosso comum "sapatinho do Natal", cujo crescimento é rapidamente revigorado com a adição deste elemento químico.

Termicamente falando, podemos dizer que os sapatinhos encontram-se confortáveis onde nós assim o estivermos. Ainda que algumas espécies do subgrupo Parvisepalum prefiram condições mais frescas, não tolerando temperaturas muito superiores aos 25 ºC, a maioria, dadas sombra, humidade e arejamento, toleram bem essas condições mais quentes. Em boa verdade, os resultados são normalmente melhores em condições que rocem características mais tropicais.

Será possível cultivá-los no exterior, mas para que atinjam os melhores resultados é importante que a zona escolhida seja abrigada das chuvas, cabendo ao entusiasta a sua rega e tratamento.

Especial atenção deverá ser dada à adubação e às pragas. Erroneamente se tem falado sobre o primeiro aspeto, mesmo em relação ao “sapatinho do Natal”. Ora, nestes, ao florescerem durante o inverno, significa que o período de crescimento para tal floração foi anterior, ou seja, nos fins da primavera, verão e outono. É precisamente neste período que deve incidir a adubação e não nos meses mais frios, precisamente quando a maioria o faz e que corresponde ao período que a planta deverá “descansar”, recebendo menos água e cessando a fertilização. Este ciclo poderá ser aplicado a todas as espécies e variedades, descobrindo, para cada uma, a melhor altura para adubar, já que a variedade é muita, assim como as diferentes épocas de floração.

Os sapatinhos são particularmente suscetíveis a fungos, cochonilhas e a tripes. É necessário verificar o estado geral das plantas pelo menos uma vez por semana, descobrindo os problemas no início e facilitando o tratamento.

Para finalizar, existem plantas com vírus na nossa região. Normalmente, estas plantas possuem um crescimento menos vigoroso e as flores surgem, durante dois anos consecutivos ou mais, deformadas e com menos cor e brilho. Infelizmente, não há cura para esse mal e deverão ser destruídas, nunca utilizando o mesmo instrumento de corte em duas plantas diferentes sem o esterilizar.

Ainda que o menor vigor de algumas espécies e variedades não permita a utilização das suas flores cortadas, vingam pelo exotismo, cor e como verdadeiras joias e relíquias de um colecionador. Temos todas as condições para dar mais cor e tropicalismo aos nossos jardins e, para tal, é importante que dispendamos algum tempo a aumentar os nossos conhecimentos.

 

Pedro Spínola

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