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A pastagem permanente, a conservação do solo e a água

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Andossolo

No Ano Internacional do Solo, a sua conservação torna-se um tema central tanto mais que, sendo a maioria dos solos da Madeira Andossolos (solos em que a argila é do tipo Alofana, de muito elevada fertilidade), são tixotrópicos, ou seja, são muito instáveis, pois quando húmidos ou encharcados liquefazem-se se submetidos a pressão ou a vibração, causando os deslizamentos e transporte de sedimentos, cheias catastróficas, arrastamento de pedra, etc., pelo que a compreensão dos mecanismos é necessária para a sua salvaguarda.

Sendo os solos e a sua conservação o melhor sistema de transformação, filtro e tampão, regularizador do ciclo hidrológico, condicionador da quantidade e qualidade da água, os mecanismos de proteção da riqueza do solo, base da vida terrestre, são também a forma de garantir a quantidade e a qualidade do recurso água.

Repare-se no balanço hidrológico de dois solos no Pico do Areeiro:

- um solo profundo, com cerca de 1,5m de profundidade e com mais de 20% de matéria orgânica, da chuva anual de 2 960 mm por ano drena, também por ano, a água que excede a evaporação, cerca de 2500mm (l/m2), dos quais 1000 lentos, cerca de 1300 a velocidade média e os restantes 200 muito rapidamente.

Se o solo estiver com vegetação e tiver um elevado teor em matéria orgânica, pouca água escoará à superfície e esta drenagem irá abastecer os aquíferos suspensos da ilha, em especial no caso da drenagem lenta, e quando a vegetação tiver a capacidade de fixar o solo pela distribuição e abundância das raízes.

- e um solo delgado, com cerca de 20 a 30 cm de profundidade, sendo o mais provável que toda a precipitação acumulada que exceda em 100 mm a capacidade de campo sobre a evapotranspiração escoará à superfície.

No caso do solo muito delgado e degradado, a capacidade de absorção da água da chuva reduz-se a menos de 10 mm dia-1. Assim, qualquer chuvada forte provoca o escoamento superficial.

Este escoamento será sempre abundante com chuvadas diárias superiores a 70 mm, e será sempre maior que 100 mm caso a precipitação máxima diária na ilha da Madeira se aproximar de 200 mm. Ora, na Encumeada de São Vicente, Bica da Cana, Poiso e Santo da Serra ela variou de 245 a 277 em 2010.

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As principais bacias hidrográficas da ilha, apesar de não drenarem áreas extensas, apresentam fortes declives dos talvegues na região de cabeceira e das vertentes em toda a sua extensão.

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Um aspecto de Leptossolos andicos degradados, com pastagem de má qualidade e com inúmeros delizamentos de terra, indicadores da perda de água e solo.

O escoamento superficial atinge velocidades muito elevadas, percorrendo rapidamente a curta extensão dos cursos de água, causando grandes inundações, arrastando consideráveis volumes de material sólido (aluviões), resultantes do tipo de solo, cheias e aluviões que afetam frequentemente a ilha da Madeira. 

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Aspecto de um Vertissolo na vertente Sul
da Ilha a média altitude

Assim, a conservação dos solos profundos é vital e tal apenas será possível ou com a floresta autóctone - com a laurissilva - ou com o mato de urzes e a única utilização possível será a pastagem permanente, nunca a anual, e mesmo esta desde que em mosaico e sempre com um encabeçamento compatível com a pastagem.

Só assim será possível que a água caída na montanha, nas partes altas de Madeira e na vertente Norte, possa ser conduzida pelos sistemas de levadas para abastecimento público e para a rega na vertente Sul e nas partes baixas da Ilha onde o défice hídrico é elevado, mesmo em Vertissolos profundos e férteis.

 

Eugénio Menezes de Sequeira
Eng. Agrónomo, Investigador Coordenador do ex-INIA
Conselheiro do CNADS
Vogal da DN da Liga para a Proteção da Natureza

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