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Não é só a moda, o agroalimentar também tem tendências... conheça-as!

tendencias2Quando lemos ou ouvimos a palavra "tendência", e principalmente se ao substantivo seguir-se-lhe a preposição "para" e um número, que represente o ano atual ou próximo, em primeiro lugar e provavelmente, ocorrer-nos-á a ideia de roupas e vestimentas. Sim, a indústria do vestuário, à qual se ligam mais ou menos diretamente a dos acessórios (dos que adornam o corpo e a sua geografia) e a do calçado, as quais em conjunto constituem-se simplificadamente na designada moda.

Este conceito e o de "tendência" são, na mesma linha do senso comum, geralmente sobrepostos e utilizados como sinónimos. Ou seja, "moda" é "tendência" e a "tendência" é "moda".

Neste universo dos usos/utilidades que se "constroem" ou, melhor, "criam", pois devem-se ao trabalho de talentosos estilistas e designers, estes detêm, como característica mais marcante, uma mais ou menos pequena durabilidade. Não será por acaso que estar "fora de moda" ou "fora de tendência" acontece a muito boa gente, por variadíssimas razões, ainda que, anos mais tarde, uma dada "moda" ou "tendência" em que alguém se tenha deixado enquistar pode voltar (chamar-se-á revivalismo, dirão os mais puristas). Esta efemeridade, sabe-se, estará mais relacionada com a lógica de negócio dos setores económicos em causa do que com a volatilidade ou inconstância de certas almas humanas.

E, uma vez que nos aventurámos por esta abordagem para chegar ao escopo deste artigo, não seria de bom-tom, porque haverá sempre quem se interesse por estas matérias, não desvendar um pouco do que serão então as tendências para 2014, já para a primavera/verão (as do outono/inverno 2013/2014 estarão a finar-se), as quais assentarão, e perdoando-nos utilizar o vernáculo dos especialistas, repleto de estrangeirismos e de uma cultura muito própria: num looks-chave de sportswear, com influência dos inícios dos anos 60 e da geometria de Courrèges e Mary Quant; os looks femininos centrados em babados, cetins e sedas de cores suaves que contrastam com o tailoring masculino num mood vernal que transpira estilo grunge; quanto às cores, registe-se a neutralidade do branco puro para o mood sportswear, enquanto o laranja continuará como foco das cores vivas, juntamente com os azuis aquáticos frios, sendo que o último grupo da paleta centra-se nos pastéis, com tons pêssego e pistachio, que substitui (lá está) as tonalidades menta do último verão. Podendo termos despertado a curiosidade de algum(a) leitor(a), vá lá, condescenderemos em só mais uma dica, e apenas quanto aos tecidos a imperar: estes serão do tipo decorativo como o jacquard, a renda, a organza e o cetim.

Ainda ancorando à moda e às suas "tendências" bianuais, haverá que referir que estas não resultam só da arte e engenho de criativos efervescentes mas, excetuando a alta-costura, no que respeita ao pronto-a-vestir, também enquadram o contexto socioeconómico que vão "vestir". Isto para dizer, conquanto numa análise muito superficial, que nada pode ser feito por acaso e que, pese o seu génio mutante, enquadram muitas variáveis, sobretudo o poder-de-compra dos potenciais clientes dos mercados de inserção, o que obrigará a que tudo tenha de ser preparado com a devida antecedência, tanto mais que estão em causa definições de têxteis e outros materiais e fabricos mais ou menos complexos.

Todo este introito vem a propósito da recente divulgação pela PortugalFoods (uma associação formada por empresas, por entidades do sistema científico e tecnológico nacional e por entidades regionais e nacionais que representam os vários subsetores que compõem o setor agroalimentar português), mais precisamente em conferência realizada na Maia em 31 de janeiro passado, das 10 principais tendências mundiais do setor agroalimentar para 2014, as quais passamos a indicar tal como descritas:

1. Indústria agroalimentar começa a olhar para si: maior orientação para a redução do desperdício sempre com vista à sustentabilidade – a passar sobretudo pela utilização crescente de embalagens reutilizáveis.

2. Recuperação da confiança do consumidor: dando-lhe para isso mais informação sobre a origem dos produtos.

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tendencias13. Maior enfoque no rácio qualidade/preço.

4. Grandes empresas mostram-se atentas às empresas mais pequenas, como fonte de ideias.

5. A saúde é holística: as empresas têm de entender bem qual a mais-valia dos seus produtos.

6. Novos superalimentos: face ao aumento do interesse pelo consumo de frutos e vegetais, haverá espaço para alimentos menos conhecidos como a alcachofra ou a chia.

7. Ascensão dos híbridos: marcas conhecidas começam a entrar em novas categorias, o que populariza a marca e reforça a sua identidade.

8. Horizonte proteico: o interesse pelos produtos com proteína está a crescer abrindo novas oportunidades de mercado.

9. Estratégias subtis sobre a redução do sal, açúcar e gordura, embora a estratégia-chave se centre mesmo na redução.

10. Alternativas alternativas: o consumidor quer novos produtos e os produtos sem glúten continuam a expandir.

Este elencar de tendências para o agroalimentar, teve por base informação do Observatório da PortugalFoods, departamento que procede à vigilância ativa de mercados e tendências de produtos, ao nível mundial. A responsável por este trabalho, Isabel Braga da Cruz, na sua apresentação, foi perentória afirmando que o «consumidor continua à espera de coisas novas e novos produtos».

No que toca às embalagens, Isabel Cruz salientou o facto de haver uma maior atenção e até destaque sobre a indicação da proveniência dos produtos, constatando que «a origem dos alimentos tem vindo a ser utilizada como plataforma de marketing, sendo que no final o consumidor sai beneficiado", mais adiantando que esta questão está intimamente ligada a vários escândalos ocorridos que vão diminuindo a confiança dos consumidores, como foi o recente caso da carne de cavalo na Europa.

A coordenadora deste estudo, também referiu que «com a crise, há também uma mudança dos hábitos do consumo. Até porque o consumidor reposiciona a sua atitude e foca-se somente no necessário», clarificando que apesar do consumidor procurar comprar mais barato «também se premeia com produtos "premium". Daí que haja um maior foco na proposta de valor e no rácio qualidade/preço de determinado produto».

Outra das tendências reveladas está relacionada com uma maior atenção das grandes empresas com as mais pequenas, como fonte de novas ideias. A produção artesanal de snacks, biscoitos ou cervejas, por exemplo, têm um elevado potencial de impacto nos mercados.

Foi ainda referido que cada vez mais o consumidor preocupa-se com a saúde e o bem-estar, daí ser crescente o interesse e a procura por frutas e vegetais. Segundo Braga da Cruz «a promoção do consumo de frutos e vegetais permanece na agenda estratégica da saúde pública. De igual modo a redução do sal, do açúcar e da gordura continuarão a ser uma prioridade para a indústria agroalimentar. Ao mesmo tempo, as proteínas ganham terreno, dado que os seus benefícios são cada vez mais reconhecidos pelos consumidores (controlo de peso e saciedade)».

No setor agroalimentar, as "tendências" assentarão mais no primado do consumidor e da melhor satisfação das suas necessidades, a diversos níveis (saúde e bem-estar, "bolso", hedonismo, confiança, segurança....). Igualmente se cruzam preocupações ambientais, como seja a questão do recurso a embalagens cada vez menos poluentes. Voltando às "tendências" da Moda estas, ainda que tenham como foco final o utilizador, "mandam mais" e, se não quisermos ser excessivos e afirmar que até "impõem", não deixam de dispor de uma grande capacidade de "inculcar" ou "persuadir a".

Só não concordamos que as tendências para o setor agroalimentar acima apresentadas tenham por mero horizonte temporal o presente ano. Muitas das enumeradas terão um prazo mais ou menos longo para que se concretizem num grau suficientemente adequado. Julgamos ser mais correto considerar que a "cultura" deste setor deveria, antes sim, absorver como "tendência" permanente, e todos os anos renovada, a "inovação". "Inovar" nos produtos e nas formas da sua disponibilização, no sentido de satisfazer cada vez melhor os anseios dos consumidores mas, simultaneamente, as necessidades e aspirações dos produtores base, isto é, as dos pequenos agricultores, pescadores e agroindústrias artesanais.

Porque como dirá um aforismo anónimo que ainda há pouco tempo lemos numa rede social «pelo menos uma vez na vida precisamos de um advogado, um médico, um arquiteto. Mas 3 vezes por dia precisamos de um agricultor».

Paulo Santos
Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural

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