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Cogumelos da Madeira - papel ecológico e conservação

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A relação entre os macro-fungos, cuja parte visível são os cogumelos, e a floresta é bem conhecida. Muitos possuem um papel importante como saprófitas (utilizando a matéria morta), como parasitas ou mesmo como simbiontes, por exemplo, como fungos micorrízicos.Nos ecossistemas da Madeira, nomeadamente nas florestas e, nestas, na Laurissilva, são comuns os cogumelos que, sobre troncos ou folhas mortas, exemplificam o tipo de vida saprófita e são fundamentais no ciclo dos nutrientes da floresta e na formação do solo, sobretudo da sua componente orgânica.

Existem espécies especialistas na decomposição de troncos, enquanto outras ocorrem exclusivamente sobre folhas.

No que respeita às espécies parasitas, a mais conhecida é, sem dúvida, a Madre-Louro, Exobasidium lauri, espécie que parasita o loureiro endémico (Laurus novocanariensis) e cuja ocorrência fora da macaronésica é apenas episódica.

Outras são bem conhecidas dos visitantes regulares da floresta, como o gigantesco Ganoderma, cujos discos lenhosos se podem ver sobre várias lauráceas mas que são particularmente comuns sobre tis e vinháticos.

As espécies simbióticas são menos conhecidas e, embora na Madeira ocorram espécies do género Tuber, i.e., do mesmo género das famosas trufas, as condições ecológicas e as espécies florestais presentes não permitem a ocorrência de nenhuma das espécies comestíveis.

A conservação da micoflora, ou seja, da flora micológica, depende da conservação dos ecossistemas.

De facto, fungos e plantas necessitam de medidas de conservação comuns, sendo fundamental referir que a diversidade de fungos depende da diversidade de plantas (e vice-versa!), pelo que distintas florestas possuem distintas micofloras.

 

hygrocybe  miniata

Trametes versicolor

A Madeira, como sabemos, possui vários tipos de florestas naturais, além de povoamentos de várias exóticas florestais e ocorrem na Madeira mais de 500 espécies de macro-fungos, um número notável! Muitos ocorrem em habitats humanizados, como os jardins e parques, sendo vítimas de preconceitos, sobretudo o receio de envenenamentos. No entanto, muitos deles possuem, mesmo nestes espaços, um papel importante quer como simbiontes de várias plantas quer como saprófitas, sendo, para além do mais, seres vivos em muitos casos atractivos, pela sua morfologia e coloração.

Muito embora na Madeira não exista uma cultura popular associada à colheita de cogumelos (se excetuarmos a Madre-Louro) devem ser seguidas algumas regras no que respeita à sua colheita, a mais importante sendo não os colher para fins gastronómicos a não ser que os conheça muito bem, pois os riscos de envenenamento não são muito elevados mas as consequências podem ser muito complicadas (e em alguns casos letais).

A nível individual devemos ter consciência e melhorar o nosso comportamento no campo, não destruindo desnecessariamente indivíduos ou populações e, se os colhermos, devemos evitar a utilização de sacos de plástico (o plástico não permite a transpiração e facilita portanto a fermentação dos cogumelos, impede a libertação dos esporos durante o transporte e contamina os campos e florestas, quando abandonado), deve-se antes utilizar cestos de vime, permitindo a ventilação das colheitas e a disseminação dos esporos. Deve-se também evitar colheitas exageradas, ainda que a parte colhida corresponda apenas ao corpo frutífero de um ser vivo que é na verdade de muito maior dimensão.

Além do papel ecológico é ainda relevante o enorme atrativo que os cogumelos apresentam como objetos fotográficos, sendo claramente um recurso sustentável no ecoturismo regional.

Miguel Sequeira
Universidade da Madeira

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