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Câmara de Lobos muitos produtos da terra tem!

camara de lobos paisagem E no início de um ano novo que se quer de esperança, seguimos para Oeste, para o concelho de Câmara de Lobos. A sede de concelho com o mesmo nome, urbana e também rural, junto à baía onde outrora nadavam os lobos marinhos, sobe encosta acima com extensos bananais e, mais em cima, com vinhedos que se prolongam até à freguesia do Estreito de Câmara de Lobos. Naquele lugar predomina a casta “Tinta Negra Mole” que, no decorrer das estações, pinta com cores que nas folhas vão do verde tenro ao escuro e a tons vermelho-acastanhados, com cachos e bagos de cor roxa carregada quando estão maduros e que nos deixam embevecidos com tamanha beleza dada pela natureza e pelo saber-fazer do nosso Agricultor.

Ainda na freguesia de Câmara de Lobos, a poente, temos o sítio da Caldeira, qual anfiteatro agrícola recheado de hortícolas e de algumas árvores de fruto, que abastecem sobretudo este município e o Funchal. Seguindo em direcção ao Cabo Girão, pela antiga Estrada Regional, chegamos à Quinta Grande, que é igualmente terra de muita verdura.

Fazendo jus à expressão “a cereja no topo do bolo”, surge lá no alto, o Jardim da Serra, em que aquele pequeno e delicioso fruto se destaca e é motivo de celebração numa prova de atletismo, quando as cerejeiras ficam cobertas com o branco das suas flores e na Festa da Cereja, que acontece em meados de Junho com um cortejo etnográfico que não deixa ninguém indiferente. Dali, avista-se o Curral das Freiras, que é conhecida como a terra da castanha madeirense e que partilha o cultivo da ginja com o Jardim da Serra.

 

camara de lobos paisagem2 O Curral das Freiras, rodeado pelas imponentes montanhas, que nem uma castanha encerrada num ouriço, assinala no Dia de Todos os Santos (1 de Novembro), a Festa da Castanha, a mais antiga1 de Portugal. Noutros tempos, a cidra do Curral, após ser cristalizada, por ser afamada, era muito cobiçada pelas confeitarias funchalenses para os bolos de mel de cana-de-açúcar. E porque no passado nem sempre ali havia abundância de alimentos, houve que encontrar algo que saciasse a fome. Cozia-se, então, o brigalhó durante 24 horas, um pequeno tubérculo que depois de cozinhado, podia ser guardado na loja durante uma semana. Nos dias de hoje e a título de curiosidade, o brigalhó é motivo de uma mostra que divulga aos residentes na Região e turistas os seus segredos de confecção e pode ser degustado cozido ou frito com atum de escabeche, além de ser utilizado na preparação de alguns bolos.

Pelo Natal, que foi há pouco tempo, não podemos esquecer a famosa Noite do Mercado do Estreito de Câmara de Lobos, que por entre cânticos da época noite fora, compram-se as verduras e frutas fresquíssimas da época para os dias da Festa.

Câmara de Lobos, da beira mar até à serra, muitos produtos da terra tem!

1 – De acordo com o investigador e jornalista transmontano Jorge Lage, que atesta a antiguidade da nossa festa da castanha na sua obra “Castanea – Uma dádiva dos deuses”, a segunda festa da castanha mais antiga do país, com uma semana de diferença, é a Festa do Castanheiro/Feira da Castanha de Marvão.

(O autor prefere usar a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990)

 

Joaquim Leça
Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural

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