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podio1Em Portugal, se no campo das ideias o fenómeno teve a importância que teve no devir da sociedade, e lembramo-nos em particular do "iluminismo", no que respeita aos bens alimentares estrangeiros, enquanto durante muitos séculos era preciso "ir à procura" deles, e fazia-o quem dispunha de um determinado estatuto social e económico, desde as últimas décadas do século passado, por diversas razões que não interessarão agora escalpelizar, foram aqueles bens que passaram a "vir à procura" dos consumidores.

Gradualmente, sob o epíteto de "globalização", assistiu-se a uma verdadeira invasão dos mercados por produtos agroalimentares provenientes dos mais diversos cantos do planeta, desde a nossa antípoda Nova Zelândia à exótica Costa do Marfim, e dentro das vastas gamas e sortidos oferecidos, em condições comerciais para serem acessíveis a (quase) "todos os bolsos". Municiada em paralelo pela evolução da estrutura da distribuição alimentar retalhista (as grandes superfícies) e por um então melhor rendimento disponível das famílias, em pouco tempo a procura destes produtos registou um crescimento explosivo, passando a deterem posições crescentemente cimeiras nos expositores dos locais de venda e, em meia dúzia de anos, converteram-se em meros "produtos": a "maçã", a "banana" ou a "goiaba", para os quais o "BI" (agora "cartão de cidadão", claro) deixou de ter especial relevância.

podio2Como qualquer "invasão", não teve (nem teria que ter) grande consideração pelas produções portuguesas, limitando-se, com os seus principais "trunfos" (sobretudo o preço e a apresentação) a fazer competição com estas e na "casa" delas. Muitos consumidores, como que "inebriados" pelo resplendor da "nova" oferta agroalimentar, num ápice banalizada designadamente ao nível dos hortofrutícolas, foram dando cada vez menos relevo à proveniência geográfica das produções, selecionando-as principalmente pelo binómio preço/qualidade aparente, com óbvio pendor para as "de fora", reservando o patamar do orçamento normalmente disponível para a aquisição desta categoria de produtos para obterem quantidades superiores do mesmo bem ou, em simultâneo, diversificando o cabaz habitual.

Não foi, em geral, imediata a reação da produção portuguesa mas, depois de perceber que tratar-se-ia de um "combate" não resolúvel com protecionismos e barreiras artificiais à circulação de mercadorias, logo meteu mãos à obra (ou "à terra", se quiséssemos ser mais precisos) para alcançar as mais adequadas vantagens competitivas. Tirando partido de apoios públicos, com basto impulso de programas comunitários específicos, vários setores foram, ao longo do tempo, modernizando-se, quer ao nível das infraestruturas produtivas quer das comerciais. Para algumas produções, a qualidade da oferta melhorou substancialmente, como a assertividade aos mercados, nas suas já também diferentes configurações. Mas, ainda assim, faltava "tocar", se nos é permitido nomear, na "consciência de consumo" dos decisores de compra quer profissionais quer das famílias, ou seja, persuadi-los de que não bastava considerar o "rosto", mas igualmente a "alma" dos produtos que distribuíam e consumiam e tudo o que aquela pudesse encerrar, seja ao nível objetivo, designadamente quanto às implicações económicas e sociais, seja do subjetivo, no que respeita a sentimentos como a pertença, a comunhão e o orgulho.

podio4Este maior esforço, se alicerçado por certos regimes de certificação da qualidade e da origem europeus, muito ficou a dever a campanhas comunicacionais dos próprios agricultores e das suas associações, principalmente dos com maior grau de organização setorial (caso paradigmático da Pera Rocha e da Maçã de Alcobaça), como a iniciativas promovidas por instituições privadas e públicas ("Movimento 560", "Compro o Que é Nosso", este último entretanto alterado para "Portugal Sou Eu") e, na nossa Região, não se poderá deixar de relevar o caso de sucesso que vem constituindo a marca "Produto da Madeira".

Este já longo introito vem a propósito de termos de admitir que, mais ou menos intempestivamente, podem surgir fatores imprevistos que, ainda que globalmente negativos em tantos aspetos, conduzem à alteração da orientação de compra dominante da maioria dos consumidores. E um exemplo de uma "causa" desta natureza será, sem dúvida, o atual contexto económico e financeiro de Portugal, em que, para o que aqui nos interessa, face a maiores constrangimentos ao consumo, as pessoas, as famílias adotam atitudes e estratégias, neste caso, mais favoráveis às produções nacionais e, certamente, às da Região Autónoma da Madeira.

podio3De facto, apoiemo-nos num recente estudo do Instituto Português de Administração e Marketing (IPAM), na base de uma entrevista a 438 portugueses do continente, sobre o consumo de produtos "Made in Portugal" dos setores alimentar, vestuário e acessórios, calçado e artigos para o lar, do qual extraímos o seguinte: 47% dos inquiridos afirmam que "mais de metade das compras de produtos nacionais é do setor alimentar, cujos produtos constam sempre do cesto de compras"; quase 75% defendem que "comprar produtos fabricados noutros países coloca os portugueses no desemprego" e à volta de 60% consideram que se deve "optar por bens nacionais em vez de deixarmos que os outros países enriqueçam à nossa custa", sendo ainda da opinião de que "é sempre melhor comprar produtos feitos no nosso país" (72,1%), "hoje e sempre" (82,6%), porque significa "manter Portugal a trabalhar" (89,7%). No entanto, não concordam com a "proibição da venda de produtos estrangeiros no mercado português" (88,1%) nem com a "colocação de entraves legais às importações" (59,1%), nem são favoráveis a rotular de "não ser português quem consome produtos estrangeiros" (73,3%). Segundo Paula Arriscado, co-autora do estudo da IPAM "acreditamos que a situação que o país está a viver faz com que os portugueses estejam mais sensíveis aos consumos Made in Portugal, sobretudo no setor alimentar".

Bom seria que esta sublinhada atitude não resulte somente de uma inesperada contingência, mas que passe a ser um desígnio permanente dos consumidores em defesa da economia do seu país ou região, e do melhor bem-estar da comunidade em que se inserem, que não deixará de ser também o seu.

No nosso caso, e certamente de muitos madeirenses, o que é da Madeira sempre em primeiro.

Paulo Santos
Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural

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