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A abordagem do “Pensamento baseado nos riscos e oportunidades”, como requisito da nova versão da Norma 17025:2017

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Uma das alterações chave na revisão das normas ISO, entre as quais se inclui a Norma ISO/IEC 17025:2017 - Requisitos Gerais de Competência para Laboratórios de Ensaio e Calibração (norma de referência para laboratórios, com vista à sua acreditação), foi a de estabelecer uma nova abordagem sistemática para considerar os riscos inerentes à atuação dos laboratórios, em vez de apenas tratar a “prevenção” como uma componente isolada do seu sistema de gestão da qualidade.

O risco está associado a todos os aspetos de um sistema de gestão da qualidade. Existem riscos em todos os sistemas, processos e funções. O pensamento baseado no risco assegura que estes riscos são identificados, considerados e controlados ao longo dos processos analíticos, das atividades de apoio aos laboratórios e da construção e implementação do sistema de gestão da qualidade aplicável.

pensamento baseado riscos e oportunidades2 Em edições anteriores da norma 17025, as ações preventivas estavam separadas do todo. Ao usar o pensamento baseado no risco, a consideração dos riscos é integral. Torna‐se proativa em vez de reativa na prevenção ou redução dos efeitos indesejáveis através da identificação e tomada de ações precoces. Quando um sistema de gestão
O pensamento baseado no risco é algo que todos fazemos automaticamente no nosso dia-a-dia.

Exemplo: Quando pretendemos atravessar uma estrada, olhamos no sentido do trânsito, antes de iniciar a marcha, de modo a evitar ficarmos em frente ou sermos colhidos por um automóvel ou outro veículo em movimento.

O pensamento baseado no risco esteve sempre presente na norma 17025, contudo, esta revisão torna-o parte de todo o sistema de gestão.

pensamento baseado riscos e oportunidades3 O pensamento baseado no risco precisa de ser considerado desde o princípio e ao longo de todo o sistema, fazendo com que as ações preventivas sejam inerentes às atividades de planeamento, operacionais, de análise e de avaliação da atuação.

Obviamente, nem todos os processos de um sistema de gestão da qualidade representam o mesmo nível de risco em termos da capacidade da organização para atingir os seus objetivos e muitos necessitam de um planeamento e de controlos mais formais do que outros, sendo exemplo disso todo o processo analítico.

Exemplo: Voltando ao exemplo anterior, para atravessar a estrada com segurança, pode não ser suficiente olhar no sentido do transito e aguardar, sendo necessário recorrer a uma passagem superior instalada na proximidade. O processo de atravessar qualquer estrada é determinado considerando os riscos comprovados que estão associados ao processo.

O risco é habitualmente compreendido como sendo apenas negativo; no entanto, os efeitos dum risco, podem também representar uma oportunidade, pelo que devem ser encarados como positivos.

Nas novas versões das normas ISO, como na ISO/IEC 17025:2017, os conceitos de “riscos e oportunidades” andam normalmente associados. Contudo, é redutor considerar que as oportunidades correspondem apenas a lado positivo dos riscos.

Uma oportunidade é um conjunto de circunstâncias que fazem com que seja possível fazer algo inovador com vantagens para a organização. Aproveitar ou não uma oportunidade detetada apresenta, portanto, níveis diferentes de risco.

Ao considerar o risco ao longo de todo o sistema de gestão (SG) e de todos os processos, a probabilidade de atingir os objetivos definidos é melhorada. A prestação dos intervenientes é mais consistente e os clientes podem confiar que vão receber o produto ou serviço esperado com os padrões de qualidade pretendidos.

Em linhas gerais o pensamento baseado no risco:

• melhora a liderança;

• reestrutura o modo de funcionamento da organização;

• estabelece uma cultura proactiva de melhoria continua da atuação;

• assegura a consistência da qualidade de produtos e/ou serviços;

• e melhora a confiança e a satisfação dos clientes.

Organizações de sucesso incorporam intuitivamente o pensamento baseado no risco.

 

pensamento baseado riscos e oportunidades4 Neste contexto, para implementar este requisito, as organizações laboratoriais, têm que:

- Promover o pensamento baseado na avaliação dos riscos e na deteção das oportunidades na reconstrução do seu sistema de gestão e dos seus processos;

- Promover a identificação dos riscos (dependendo do contexto, área, processo, departamento);

- Compreender os riscos identificados, avaliando se são aceitáveis ou não, e se exigem que sejam implementados planos de ações;

- Planear ações para abordar os riscos, definindo como evitar, eliminar ou, em última instância, verificar se é possível mitigar os efeitos causados (ato de diminuir a intensidade do risco);

- Implementar as ações planeadas, com acompanhamentos sistemáticos e programados;

- Verificar a eficácia das ações planeadas, avaliando os resultados obtidos;

- Melhorar, tendo por base a experiência, promovendo a melhoria continua;

- Limitar os riscos inevitáveis, revendo e melhorando continuamente os processos;

- Continuar a analisar a eficácia dos processos e promover a sua revisão sempre que o contexto muda.

É habitual dizer-se que os requisitos da própria Norma ISO/IEC 17025:2017 foram definidos com base no pensamento dos riscos. A avaliação da validade dos resultados emitidos, a definição dos critérios de verificação e monitorização da competência do pessoal, das instalações e dos equipamentos envolvidos nas atividades dos laboratórios, entre outros são prova disso.

Estes requisitos têm como objetivo prevenir que resultados incorretos sejam apresentados aos clientes.

A identificação dos riscos nos laboratórios deve contemplar a avaliação de cada processo, desde o contato inicial com o cliente até à emissão do resultado final.

Todos os processos e colaboradores envolvidos devem ser avaliados, de modo a procurar identificar possíveis fragilidades, que devem ser reportadas, mesmo que estejam sob controlo. O pessoal envolvido deve também ser ouvido.

Também devem ser avaliados os procedimentos, as reclamações de clientes, as sugestões de melhoria do pessoal, as atividades de laboratório específicas, os resultados da reunião de revisão do SG pela gestão de topo, os resultados de auditorias, etc.

As entidades laboratoriais devem preparar uma lista com os riscos identificados, discutir e analisar suas probabilidades e consequências, avaliar e definir ações a implementar, monitorar a implementação e avaliação da sua eficácia, sem nunca esquecer que os riscos são dinâmicos.

pensamento baseado riscos e oportunidades5 Em função dos riscos e das oportunidades identificadas, o laboratório pode determinar quais as ações a implementar, que, consoante o caso, podem contemplar: aceitar e/ou assumir o risco, mitigar o risco (alterar a probabilidade ou as consequências) ou mesmo assumir ou aumentar um risco na tentativa de aproveitar uma oportunidade. O laboratório pode também definir, e com base nesta avaliação dos riscos, priorizar o tratamento de alguns deles, deixando outros para serem tratados em outro momento.

Esta análise de riscos e oportunidades passa agora a ser uma das exigências para a revisão do SG nas entidades laboratoriais, onde são analisadas as ações planeadas, implementadas, encerradas e/ou revistas quando necessário.

Conclusão:

O pensamento baseado no risco e oportunidades:

• não é novo;

• é algo que já fazemos, na maioria das vezes, intuitivamente;

• é contínuo;

• assegura mais conhecimento dos riscos e melhora a capacidade de resposta;

• incrementa a probabilidade de atingir objetivos e de detetar oportunidades;

• reduz a probabilidade de resultados negativos;

• e torna a prevenção num hábito.

Bibliografia:
ISO 31000:2009 Risk Management – Principles and guidelines.
PD ISO/TR 31004:2013. Risk management-‐ Guidance for the implementation of ISO 31000

Imagens retiradas dos sites:

a) https://www.qualtec.com.br/noticia/31/iso-9001-2015-e-suas-principais-mudancas
b) https://sp.depositphotos.com/86541984/stock-photo-risks-ahead-yellow-signs.html
c) http://www.bloggestaodaqualidade.com.br/porque-utilizar-analise-swot-para-gestao-de-riscos/
d) https://www.passedigital.com.br/post.jsp?p=rvId2M
e) https://www.qualtec.com.br/noticia/31/iso-9001-2015-e-suas-principais-mudancas

 

“Existe o risco que você não pode jamais correr, e existe o risco que você não pode deixar de correr”. Peter Drucker

Zita Vasconcelos
Gestora do Sistema de Gestão da Qualidade
Direção de Serviços dos Laboratórios e Investigação Agroalimentar
Direção Regional de Agricultura

 

 

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