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Campylobacter – agente de toxinfeção alimentar

campylobacter1 Nas últimas quatro décadas, as espécies de Campylobacter spp. têm sido reconhecidas como patogénicos emergentes e aparecem como importantes agentes de gastroenterites de origem alimentar em várias partes do mundo. De facto, dados de países desenvolvidos apontam que as infeções causadas por algumas espécies do género Campylobacter têm sido relatadas como uma das principais causas de gastroenterites. O número de casos confirmados em humanos e reportados pela European Food Safety Authority (EFSA) em 2014 foram de 236 851, o que representa um aumento de 22 067 em relação a 2013. Nos Estados Unidos, por exemplo, ocorrem cerca de 2,4 milhões de casos por ano.

As espécies do género Campylobacter estão amplamente distribuídas na natureza e a maioria está apta a habitar o trato intestinal de animais de sangue quente, sendo encontradas frequentemente em aves domésticas, bovinos, suínos, ovinos, roedores, pássaros, cães e gatos. Estes microrganismos podem contaminar vários géneros alimentícios, como carne, leite cru ou produtos láteos, sendo menos frequente em peixes e derivados, mexilhões e vegetais frescos.

Os frangos são os maiores reservatórios dessas bactérias e as espécies termofílicas estão mais associadas à doença, por suportar a temperatura do trato intestinal das aves, que é à volta de 41 °C. A contaminação de carcaças de frangos, bovinos e suínos em matadouros, o contato com aves domésticas vivas e o seu consumo, alimentos à base de carnes mal cozidas, consumo de água não tratada e a contaminação cruzada durante a manipulação de alimentos crus, são considerados os principais fatores de risco para infeções.

São várias as espécies de Campylobacter que estão associadas a doenças no homem. As espécies C. jejuni, C. coli, C. lari e C. upsaliensis representam o grupo de bactérias denominadas termofílicas, devido à temperatura ótima de crescimento oscilar entre 42 °C e 43 °C, sendo que o C. jejuni e C. coli são os mais frequentemente isolados em casos de enterite humana, embora a presença de qualquer espécie de Campylobacter em alimentos represente um potencial risco para a saúde humana.

 

A campilobacteriose no homem ocorre no decorrer da ingestão de alimentos impropriamente manipulados ou mal cozidos. A dose infetante é baixa, à volta de 500 ufc. O período de incubação em humanos varia entre 2 a 5 dias e a grande maioria dos casos ocorre de forma isolada, com eventos esporádicos, não representando um surto.

A doença é caraterizada por diarreia aguda, dor abdominal e cólica, podendo ocasionalmente ocorrer diarreia sanguinolenta contendo leucócitos e muco. Febre, frio e náuseas também representam uma sintomatologia da doença, mas os vómitos são raros.

Um fator agravante na transmissão da doença é que pacientes convalescentes podem continuar excretando o microrganismo nas fezes durante duas semanas a um mês. Infeções por C. jejuni, podem levar a sérias consequências pós-infeciosas, de entre as quais se destaca a Síndrome de Guillain-Barré, que consiste numa forma de paralisia que pode resultar em disfunção respiratória e neurológica severas e morte.

Estes organismos microaerófilos são mais exigentes e possuem crescimento mais lento que outras bactérias patogénicas e requerem condições especiais de crescimento, uma vez que são sensíveis ao oxigénio, caraterística que dificulta o seu desenvolvimento. As células de Campylobacter spp respondem ao stress causado pela presença de oxigénio, temperatura baixa ou falta de nutrientes, mudando a sua morfologia. Três fatores são fundamentais para o seu isolamento em laboratório: o uso de meios seletivos, a incubação em atmosfera de microaerofilia e a temperatura de 42 °C.

Existem vários métodos descritos para a pesquisa de Campylobacter em alimentos. A maioria dos meios de enriquecimento para esta bactéria contém uma base rica em nutrientes, antibióticos para inibir competidores e ingredientes para amenizar os efeitos tóxicos do oxigênio.

Campylobacter é uma bactéria facilmente destruída pela desidratação e preparação culinária. A aplicação das boas práticas na produção e no processamento minimiza a contaminação de carcaças de animais. Recomenda-se a educação e a consciencialização dos consumidores, na manipulação correta destes produtos, a fim de serem evitadas não só possíveis contaminações como também as doenças causadas por Campylobacter.


Luísa Abreu
Direção Regional de Agricultura

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