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Doce Natal!

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De repente, dera por mim parada a meio da sala de jantar, sem saber o que queria fazer. O Menino Jesus da minha mãe numa mão e, na outra, o Menino Jesus que o meu, tanto mais agora, relembrado Alcobias, ficara da sua progenitora. Os noventa a darem rasteira, ou a responsabilidade daquela herança a fazer mesmo peso? A dúvida não seria qual dos Meninos colocar no devido sítio: o mais crescidito, em pé e, pela expressão e pose, sabendo já do que fora incumbido, no topo das escadinhas, à direita, a subirem pelo aparador de estilo inglês do hall de entrada; o outro, bebé como todos os bebés quando estão deitados de barriga para o ar, os bracitos arqueados ansiando por outros, na gruta da lapinha no lado diametralmente oposto, na esquina entre o sofá da televisão e a vidraça que dá para o quintal.

A súbita hesitação seria uma questão da ordem, qual das figurinhas benzidas acomodar em primeiro lugar? Quando finalmente uma das minhas pantufas optou pela direção da porta principal da casa, entendi o porquê daquela súbita inércia. Ao querer decidir com o olhar, durante uns brevíssimos segundos deixara de conseguir, pura e simplesmente, referenciar ambos os presépios. Por uma casual conjugação, o alinhamento de dois corpos volumosos entre o meu e os objetos visados, ocultando-os momentaneamente. Percebesse alguma coisa de astronomia, suporia estar a testemunhar um duplo eclipse.

A poente, postara-se a menina Eufrásia, baixinha e de ancas exageradamente largas, um cabide de cruzeta ao contrário, a bata axadrezada a encobrir completamente a escadaria que eu pretendia encimar com o Menino em posição pedestre. A minha fiel empregada de há mais de cinquenta anos remexia na taça das frutas que, de manhãzinha cedo, tínhamos selecionado para os primeiros degraus daquela composição natalícia. Ainda que minuciosa, era despachada na grande maioria das tarefas. Todavia, naquela intervenção mostrava alguma indecisão: retirara um Pero Domingos miniatura, fê-lo desaparecer do lado de lá do atoalhado quadriculado e, após uma quase impercetível negação do carrapito, recolocou-o no recipiente. De seguida pegou numa anona pouco maior que uma noz, levou-a à medida dos óculos, rodou-a várias vezes entre os dedos e baixou-a suavemente com a mão magrinha. Parecia ter-lhe encontrado o poiso certo. Engano, a bola escamosa voltou ao ponto de partida...

A nascente, um grande balão vermelho a nebular toda a paisagem rochosa construída ao longo do canto esquerdo da sala de estar, tanto mais que alteada sobre a maior das arcas do meu enxoval. A Hermengarda, aquartelada ao fundo da mesa oval só utilizada para ocasiões especiais, como a que aí vinha, fazia pontaria com um tubo de cola para o sovaco de um braço azul amputado. Mesmo cortado, segurava firme a baqueta dum tambor inexistente. O dono do membro jazia em baixo sorridente, aguardando pela cirurgia. Porém, apenas um pouco mais afastados, espalhavam-se outros destroços de corpos vestidos com idêntica farda de gala, uns com desgraças maiores que as doutros. Apesar da devastação, a maioria tentava, ou continuava a soprar para o instrumento que lhe competia. A minha melhor amiga e vizinha, tivera um acidente. Enquanto permanecia meia tonta com as estatuetas do Menino sem saber qual a primeira a levar para o lugar devido, lembrei-me do que então sucedera à volta de uma hora atrás. A montagem da lapinha até que começara bem. O papel pintado de "vieux chêne" a obedecer, do topo para jusante, ao relevo da encosta que as quatro mãos iam definindo, as daqui da Quitéria Maria e as da Hermengarda, com as reentrâncias e saliências a adquirirem a verosimilhança de vales e cumes. O musgo ia dando vegetação aos sítios mais altaneiros e, entre ela, distribuíram-se alguns rebanhos. Em movimento descendente, como a Estrela indicou. Chegada a altura de conferir chefia àquele gado desordenado, quem se rebelou foi um dos pastores, não por acaso o maior que trazia um cordeiro como cachecol. A minha parceira da instalação, com esforçados saltitos, bem tentou arranjar um chão que o segurasse. A cada nova tentativa, o homenzinho deixava-se tombar. Caçoei, e recordo-me de ter dito que era provável ter abusado da aguardente. Quando as bochechas ficaram rubras como a blusa que trazia, toda a Hermengarda caiu como uma sequoia implodida, felizmente, para cima do meu sofá de tricôs, bons bodiões e muita série televisiva. Contudo, infelizmente para o que, pacatamente, aguardava nas almofadas a chamada para entrar no presépio. E o impacto mais severo aconteceu precisamente sobre a banda filarmónica, que o meu saudoso Alcobias dizia ser a do Monte, deveras atingida por um meteorito impressionante. Somente o palanquim, por milagre, escapou sem mossa assinalável.

Foi a menina Eufrásia que veio tirar-me daquela inconveniente letargia. Com a delicadeza que conferia à manipulação de coisas valiosas, soerguera do vaso de cristal um resplandecente micro-sol. Naquela ocasião todo o cuidado justificava-se, dado tratar-se de uma autêntica joia. A cor vibrantemente morna deu um beliscão, mas o verdadeiro safanão foi algo que subiu-me pelo nariz e rebentou no céu da cabeça num fogo-de-artifício de aromas e memórias. Chegara decididamente o cheiro do Natal. O perfume que tudo ungia, dando coerência a tantas e tantas coisas aparentemente dispersas e que, no seu todo, faziam a nossa Festa. A Festa madeirense. E ai se a Quitéria Maria a adorava! A mais feliz época do ano, o dezembro quase todo e um pouquinho de janeiro.

Avancei então direitinha para a ex-adolescente que um dia me aparecera à porta da antiga casa da Rua das Hortas, ainda mais encolhida de timidez numa fatiota muitos números acima do seu, informando a gaguejar que estava ali para ajudar na cuida da minha filha mais nova, a Carminho. Pedi-lhe licença, e alcandorei o Menino Jesus ao topo das escadinhas, no centro do arco forrado com pontas entrelaçadas de alegra-campo. Compus-lhe a túnica de linho-da-terra com um vivo em bordado Madeira, e o pequenote pareceu agradecer com um pestanejar.

Estava nisto, quando um sonoro escaqueirar proveio da cozinha, acompanhado do que me pareceu um triplo miar. Corremos as duas espavoridas para o local do anúncio da tragédia, pois a Hermengarda nem dera conta do estampido. Mal refeita do susto, pela evidência de cacos e sementes de trigo que polvilhavam os ladrilhos areados na véspera, apercebi-me rapidamente do que sucedera. Ou o Félix João Maria ou a Zoe tinham feito asneira. Ou os dois, em conluio felino. Sem manifestarem qualquer comprometimento, um encostado ao outro, contemplavam surpreendidos os despojos do que se pretendia viesse a ser uma searinha. O Alcobias III, esse, quedava-se por um plano superior, em cima do mesão corrido que alojava a bimbi e outras maquinetas de apoio às artes culinárias. Sendo muito mais velho, foi ele que levou o raspanete. Fez a carranca mais séria, fingindo ouvi-lo com atenção e sincero arrependimento. Eu sabia que ele andava radiante desde que os gatitos tinham chegado, deslumbrando-se, como um rotundo papa-açorda, com qualquer traquinice dos pares. Provavelmente reaprendia a ser gato. A minha neta Joana, boa samaritana desde criança, que carinhosamente cognominara de "joana-semana", resolvera voluntariar-se para uma campanha de vacinação urgente em África, num país de nome impronunciável. Pediu-me para acomodar temporariamente o Félix João Maria e a Zoe, não mais que até fevereiro, porque somente a avó, com larga experiência em trato com animais da espécie, poderia cuidá-los bem. Além do Alcobias III, depressa me afeiçoei aos bichitos, ele muito senhor do seu nariz (rosado), com uns olhos verdes desconcertantes, a menina, meiguinha e com um pelo sedoso impossível de não querer esfregar.

 

menino Jesus1Limpa a sujidade, arrumaram-se os gatos no quarto da biblioteca, onde sobraria espaço para louquejarem sem perda previsível, a não ser que os novatos fossem dados a leituras. Sanado o incidente, por mero acaso consultei o relógio do louceiro do corredor. Faltavam uns minutos para as três da tarde, a hora aprazada para a primeira amassadura de bolo de mel da quadra, e os convidados para a sessão não tardariam.

Ao ver-me de passagem pelo espelho à frente da cozinha, percebi que tinha a mão direita fechada. Pois, esquecera-me do Menino Jesus bebé, caladinho naquela alcova improvisada. Apressei-me em ir depositá-lo no berço de palhinhas que lhe tínhamos preparado na lapinha, onde José e Maria há muito o aguardavam. A Hermengarda, que até era lesta em certas atividades, concluíra com notável sucesso os trabalhos de colagem, e a banda há pouco dizimada lá estava num largo cimeiro, os elementos aprumados tocando uma música feliz. Apenas um dos tocadores que era suposto bafejar para um clarinete, fazia-o para o vazio.

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A campainha grasnou uns minutos depois da hora combinada, e a Sofia, a Ritinha, o Pedro e a Inês, em simultâneo, apresentaram-se para a lição do bolo de mel. Antes espreitaram os presépios quase prontos demorando-se, como seria previsível, pela lapinha. Admiraram-se sobretudo com a profusão de personagens, onde não faltava um representante das profissões mais tradicionais, que vinham testemunhar o nascimento de Jesus. Não resistiram a reposicionar uma ou outra figurinha com razão juvenil, o que eu deixei.

Tal como fizera aos outros onze, deliciei previamente os quatro bisnetos com um lanche de meias-luas, beijinhos, margaridas, areias, palitos de cerveja e, claro, de umas excelentes broas de mel que, não é para me gabar, este ano tinham acertado. Saciados, os aventais atribuídos, conduzi-os depois ao quarto de costura, onde mostrei, dissimulado por trás de um quadro com uma gravura vulgar, o cofre onde ficava guardado o livro de receitas da família, iniciado pela minha bisavó materna. O livro propriamente dito, orgulhoso das marcas que os anos lhe iam mordendo, estava sobre o balcão da cozinha aberto na página certa. No compartimento, esperavam também por nós a Eufrásia e a Hermengarda. Esta, que usava sempre uma peça de roupa vermelha durante a Festa, além da camisola que vestia, para a missão doceira, enfiara um gorro da mesma cor no tope da permanente. O Pedro, mais dado a brincadeiras, perguntou-me ao ouvido se tinha convidado para auxiliar da chef um gnomo gigante.

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O alguidar de barro onde tudo aconteceria, era ainda do tempo do meu Alcobias que o comprara na olaria do Sr. Soares. Disposto o aparato sobre uma mesa quadrada, a aula prática teve início. Com a Sofia e a Inês a realizarem as pesagens às minhas instruções, deitou-se a farinha, o açúcar, a soda, a canela em pó, a cidra e o pão-em-massa, ingredientes que a Hermengarda ia misturando dolentemente no sentido das bordas do vaso, de forma a deixar um círculo vago ao meio da massa. Paralelamente, na bimbi, o Pedro moeu as nozes, as amêndoas, as sultanas, a noz-moscada e as especiarias (cravo-da-Índia, cravo-de-Acha, cravos-do-maranhão e a allspice), juntando em seguida o resultado à massa base. No fogão, a Rita e a Eufrásia prepararam a fusão da banha, da manteiga e do mel de cana e, quando obtido um líquido homogéneo, lançaram-no no espaço oco que a mexedora de serviço mantivera. Adicionado ao produto mais sumo e raspa de laranjas e limões bem como cerveja preta, seguiu-se o árduo encargo de envolver líquidos e sólidos até à comunhão perfeita. Os pequenos, revezando-se, foram-no fazendo aos pares e a manobra correu muito bem. A Hermengarda, apenas por descargo de consciência ou arte final, ainda passou uns cinco minutos a massacrar o que, para todos os presentes, teria já alcançado a perfeição. O Pedro voltou a segredar-me que, na empresa de construção civil onde estava a estagiar, uma britadeira daquelas seria uma vantagem competitiva. Não percebi muito bem. A Eufrásia, finalmente, rezou uma oração para si mesma e, com uma das mãos em cutelo, traçou uma cruz sobre a superfície plástica do quase-bolo de mel.

Os miúdos ficaram desiludidos quando o alguidar foi coberto com um cobertor e arrumado num dos cantos mais reservados da cozinha. Ficava assim? Não iam poder provar hoje, quando participaram empenhadamente na sua feitura, o famoso bolo de mel da "bi" Quitéria? Expliquei-lhes que a massa teria de ficar a levedar durante 48 horas. Por isso, dali a três dias estavam novamente convocados para a sua cozedura. Sabia que, infalivelmente, o aroma que irradiava da pasta castanha-ruiva os enfeitiçara e que certamente não faltariam ao acabamento do doce. Tanto mais que seria o momento para lhes conferir o diploma de "cavaleiros da ordem do bolo de mel sublime", como outras surpresas: as minhas gracinhas de Natal para eles.

 

Quitéria Maria
(com Paulo Santos)

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