Pipocas - do campo para a "boca" do Cinema! (parte VIII) |
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Embora com a cabeça à tona, mantenhamo-nos imersos na emulsão de metol e hidroquinona que, apropriada e diligentemente, continua a revelar a preto e branco um tempo que ficou há tanto para trás e, dele, trechos das aventuras (e venturas) iniciais do cinema. Haverá apenas que cuidar que a tina que contém a preciosa poção fotográfica navegue pelo mais conciso trajeto entre Portugal continental e a ilha da Madeira, como as 518 milhas náuticas que separam as duas porções de terra possam ser tragadas, em que sentido for e as vezes necessárias, num estalar de dedos.
O empresário nortenho organizou sociedade com o cunhado, fotógrafo de profissão, e um amigo dono da «Camisaria Confiança», na Rua de Santa Catarina, descrita por Manuel Félix Ribeiro, um dos mais importantes historiadores do cinema em Portugal, como «um creditado estabelecimento comercial de roupa branca», reunindo vontades e trocos para comprarem o equipamento dos irmãos Lumière. Pôs-se a caminho de Lyon com o sócio amigo e tentou convencer os irmãos com fisionomia e guarda-roupa prequela do par Dupont e Dupond, a venderem-lhes uma réplica da sua tentadora invenção. Longe de deterem a amável parvoíce do futuro duo de polícias de Hergé, nada nos impedirá de supor que Louis Lumière tenha proferido um seco «não vendemos!», e o mano Auguste Lumière parafraseado «eu diria mais, não vendemos!».
A nega não desanimou Aurélio Reis e o companheiro, tanto mais que o vindouro criador do cinema de ficção, Georges Méliès, também não conseguira, após desesperante insistência, igual intento. Imediatamente procurou uma alternativa, a qual, por estranha coincidência, acabara de ser lançada em Paris por outros dois irmãos, neste caso, de nome Werner. A máquina de filmar era uma variante da concebida pelo duo da capital do Ródano - Alpes e chamava-se «cronofotográfico». |
Faltava levar o resultado da empresa ao público. O «Jornal de Notícias» de 12 de novembro de 1896 noticiava assim o que iria ocorrer no Teatro do Príncipe Real, hoje de Sá da Bandeira: «o espectáculo de hoje apresenta o Kinetógrafo Português, sendo exibidos 12 perfeitíssimos quadros, 7 nacionais e 5 estrangeiros. Os quadros portugueses representam o seguinte: «Jogo do Pau» (Santo Tyrso), «Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança», «Chegada de um Comboio Americano a Cadouços», «O Zé Pereira nas Romarias do Minho», «A Feira de S. Bento», «A Rua do Ouro» (Lisboa), «Marinha». O espectáculo é completado com a companhia de Zarzuela que se fará ouvir nas peças Música Clássica, Las Campanelas (primeira apresentação) e «Os Africanistas». O kinetógrapho português funciona no intervalo do 2.º para o 3.º acto». Pese o grande número de boquiabertas conseguidas em muitos tripeiros, o efeito de novidade foi esmorecendo e as receitas obtidas insuficientes para acabar de pagar o que ainda era devido aos irmãos Werner. Aurélio Reis sentiu que lhe tinham abocanhado grande parte do ânimo, mas não desencorajou totalmente, metendo-se no vapor até ao Brasil para tentar o sucesso que não conseguira. Mas o périplo correu mal e, provavelmente, de regresso ao Porto, o interesse pela floricultura lhe tenha reacendido.
Inclinando o recipiente com o líquido oxido-redutor, façamo-lo agora para sudoeste, até que aquele toque o calhau da ilha da Madeira. Aqui, a 12 de janeiro de 1908, no Teatro Águia D'Ouro, estreia o filme com o título «Excursão à Madeira», rodado em 135 mm. Esta película, um ano antes, tinha sido exibida em Lisboa e no Porto, sendo atribuída, nem mais nem menos, ao nosso personagem central de hoje, o Aurélio Paz dos Reis, em parceria com Eduardo Pascaud. A pouca sorte profissional do iniciador do cinema português, parece também ter vindo na sua «Excursão à Madeira». De facto, naquele mesmo ano, quatro meses após a abertura, a sala de cinema do Águia D'Ouro é destruída por um violento incêndio provocado por uma película que se suspeita ter inflamado o arco voltaico do projetor. Só em 1922 um madeirense se apaixona decididamente pela arte de fazer cinema. Chamava-se Manuel Luz Vieira (1885-1952), carinhosamente tratado por "Vieirinha". Fotógrafo de ofício, era o dono da «Casa Pathé», em frente do atual edifício na Rua Câmara Pestana. Data àquele ano a sua primeira experiência cinematográfica, um filme que encenava uma briga no Largo da Igrejinha. (continua na próxima edição do DICA)
Paulo Santos |
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