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Pipocas - do campo para a "boca" do Cinema! (parte IV)

sombra1Uma das personagens mais memoráveis das aventuras de Astérix e Obélix será o pérfido Tullius Venenus, do álbum "A Zaragata", dado ao deslumbre dos mortais em 1970 pela pena e traço da inimitável (e muito saudosa) agremiação Goscinny e Uderzo. Um meia-leca, de sorriso cínico retorcido, sobrancelhas maldosas e mãozitas que adoravam perspirar-se uma na outra, brotado de cromossomas com hélices em vez de compostas por (ácido) desoxirribonucleico, constituídas por (ácido da) discórdia. Um homúnculo vermiforme que, por onde passasse, ou com quem estivesse, babava a completa desarmonia.

Na banda desenhada, Tullius Venenus, embora lhe tenha provocado algumas fissuras, não foi capaz de desconjuntar a paliçada da não por acaso famosamente irredutível aldeia gaulesa, frustrando por mais uma vez a ambição de império perfeito de César. Supondo que a aparição do pitónico ente tivesse sido antecipada aos anos do primordial confronto entre o cinema e a televisão, também não conseguiria levar a cabo a intenção de os por em faísca numa guerra que só terminasse com um vencedor. Contudo, o cinema, e quando agora o evocamos, o seu cerne, a indústria promotora e fazedora de filmes, logo percebeu que o entretenimento de massas entrara numa nova era, ou já não tivesse praticado no celulóide a adivinhação de futuros. Perante o falso David, o cinema adotou a máxima «se não podes com ele, junta-te a ele», ainda que reservando veladamente para os seus botões uma espécie de remoque que, se legendável, diria algo como: «mas mais tarde se verá».

A estratégia de simbiose foi óbvia: levar o cinema aos olhos de quem se deixara enfeitiçar pelo pequeno écran e, precisamente, através daquela arca hipnótica. Tal não obstou a que os generais da 7.ª arte mandassem prosseguir com afinco, em mais ou menos secretos laboratórios, a descoberta de soluções tecnológicas que, incorporadas nos filmes ou nos locais da sua mostra, voltassem a iscar o público fugidio.

sombra3Curiosamente, por 1955, foram os britânicos os primeiros a dar esporas à marcha do cinema para a TV norte-americana, tendo a Rank vendido ao canal NBC um pacote de 100 longas-metragens. A primeira reação aos invasores da velha Albion partiu de pequenos estúdios como o Monogram e a Republic. Os grandes estúdios de Hollywood, como refere Rui Cádima no seu interessantíssimo livro «Desafios dos Novos Media», demoraram mais a perceber o interesse da televisão para a indústria cinematográfica: «Entretanto a RKO começa a rentabilizar o seu catálogo de quase um milhar de filmes. Entre eles vai estar King Kong (de 1933). Emitido no início de 1956 na televisão, o filme vai ser um grande sucesso. A partir de meados dos anos 50, e pela primeira vez na história do cinema americano, largas camadas de público vão voltar a ver os seus clássicos preferidos... mas agora na televisão». Este autor mais adianta que «a WOR TV, de Nova Iorque, passa a transmitir no final de 1956 quase 90 por cento da sua programação semanal em longas-metragens (RKO). Atrás da RKO vem a Columbia, a Fox, a MGM, a Warner e finalmente a Paramount, que passam a disponibilizar para a TV os seus catálogos - ou apenas alguns packages - anteriores a 1948».

 

sombra2No seu minucioso estudo sobre os prenúncios do conúbio cinema-televisão, ou vice-versa, Rui Cádima esclarece que «começam também a ser programados filmes posteriores a 1948, e também filmes a cores, o que vem dar novo impulso ao cinema na TV: acontece na NBC, a partir de 1961, com a abertura às produções mais recentes de Hollywood. A estratégia de contraprogramação da NBC é assim um êxito. No início dos anos 60 são já mais de 100 filmes por semana que passam nas redes de TV só da zona de Nova Iorque. As noites de cinema em prime time passam depois também para a ABC (1962) e só mais tarde para a CBS (1965). No final de 1968, as três networks oferecem diariamente uma longa-metragem aos seus telespectadores. O filme passa a ser o programa estratégico na guerra de audiências. Ficou histórica a noite de 25 de Setembro de 1966, com A Ponte do Rio Kwai, que bate pela primeira vez os programas de maior audiência da altura - Bonanza e Ed Sullivan Show».

No meio desta narrativa, embora o possa ter parecido, não nos esquecemos das pipocas. Rápidas a estalarem ao calor certo, tirando proveito da onda de choque gerada pela sua autoexplosão, com igual ímpeto ripostaram ao efeito magnético exercido pela televisão sobre parte significativa da sua clientela tradicional, a mesma que debandara do seu principal bastião, as salas de cinema. Mais "Speedy Gonzales" do que o seu velho par, a astúcia arquitetada foi em quase tudo semelhante à adotada pelo parceiro: «não vêm a nós, vamos nós a eles».

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Na altura, não era nada prático e, como tal, motivador, tentar fazer pipocas em casa, o então refúgio preferido dos seus antigos fãs devoradores. Era necessário dispor de um recipiente adequado (nos Estados Unidos da América com a denominação específica de «popper»), de óleo, de manteiga, de sal e de outros ingredientes que, na combinação ótima, permitissem replicar, sem incidentes de maior (muitos tetos terão ficado como que baleados), o popcorn por que se tinham viciado na penumbra dos cinemas. Em pouco tempo, ainda em meados dos anos 50 do século XX, vários engenhocas patentearam e começaram a comercializar soluções "faça você mesmo as suas pipocas". Estes inventos incluíam o tal dispositivo, o "popper", para aquecer os grãos de milho, os quais, por sua vez, já vinham devidamente temperados. Depois da «E-Z Pop», seguiu-se-lhe a «Jiffy Pop» que obteve um estrondoso sucesso nos lares dos norte-americanos.

Estando o seu principal divertimento entre paredes, mais rico com a posterior inclusão de filmes como os do cinema, acrescido do facto de poderem prazentear-se com pipocas acompanhadas duma volumosa coca-cola, muitos estado-unidenses não ambicionariam outro mundo. Movimentando-se cada dia menos, talvez se encontre por aqui o princípio da escalada de uma certa obesidade mórbida que caracteriza algumas franjas deste povo.

(conclui na próxima edição do DICA)

Paulo Santos
Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural

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