Pipocas - do campo para a "boca" do Cinema! (parte II) |
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No remoinho de destruição económica e pobreza resultado do colapso bolsista daqueles tristes anos trinta, foram então as pipocas que se conglutinaram numa autêntica boia, ainda que atirada à interposta figura dos locais onde o mesmo tinha a sua única forma de objetivação, para salvarem o verdadeiro cinema: a arte e indústria. Aliás, naquele período depressivo e deprimente, as "fábricas de ilusões" de Los Angeles adquiriram uma dinâmica assinalável. Se os filmes de gansters cedo foram considerados perniciosos por poderem inculcar valores nada convenientes à juventude norte-americana, foi também naquela altura que Chico, Harpo, Gummo e Zeppo, comandados por Groucho, começaram a dar curso às suas elaboradas folias, arrancando às audiências gargalhadas que pareciam para sempre congeladas. Além dos Irmãos Marx, também foi por aquela década que irromperam os volteios maravilhosamente coreografados, pautados por melodias memoráveis, do par Fred Astaire/Ginger Rogers, como a animação, pelas mãos geniais de Walt Disney, fazia a sua aparição nos grandes écrans: os primeiros trazendo para a tela a espetacularidade da dança e da música e, a segunda, inaugurando um novo processo de encantamento das multidões. Deste modo "ter ou não ter pipocas, eis a questão" não constituiu uma abusiva adaptação da célebre frase que Shakespeare pôs na boca de Hamlet, antes a tática que permitiu a sobrevivência do cinema, e de toda a "máquina" que o gerava. Como ilustração deste axioma, um estudioso do assunto como o já citado Andrew Smith, refere o caso de uma cadeia de cinemas de Dallas que instalou máquinas de pipocas em 80 das suas unidades, não o fazendo porém em 5 as quais, por serem as melhores, posicionara exclusivamente para as elites. Nos dois anos seguintes os lucros dos cinemas "pipoquentos" subiram estratosfericamente, enquanto os colocados em quarentena àquela presença caíram pura e simplesmente para o "vermelho". Mesmo, poucos anos depois, perante a Segunda Guerra Mundial, a simbiose entre as pipocas e os cinemas continuou a adquirir uma maior solidez e perfeição, tanto mais que durante o conflito o açúcar esteve sujeito a racionamento, assim esmorecendo quaisquer veleidades dos outros snacks competidores, como os doces e as sodas. Depois de um namoro algo tumultuoso, em 1945, finda a pior catástrofe humana do século XX, era um dado adquirido que a relação entre as pipocas e o cinema tornara-se num robusto casamento de conveniência, ao que tudo indicava inabalável a qualquer provação. Por aquela época, mais de metade da produção estado-unidense de "popcorn", por si só já impressionante, passara a ser consumida no interior dos cinemas. Entretanto, estes tinham adotado a estratégia de motivar mais ainda os espetadores à compra do snack, introduzindo antes dos filmes que iam exibir, ou a meio do seu decurso (terá sido este o verdadeiro motivo da criação dos "intervalos", antes paragens técnicas mais ou menos curtas para se mudarem bobines), anúncios que apelavam, sem qualquer pudor, ao seu desfrute. O mais famoso daqueles spots é "Let´s All Go to the Lobby", com 40 segundos, lançado em 1957. Esta "curtíssima" é uma pequena obra-prima, e o leitor mais curioso poderá visioná-la facilmente no YouTube. Em 2000, por reconhecer a inestimável importância histórica e cultural deste filme, a Biblioteca do Congresso propô-lo para constar do United States National Film Registry. (continua na próxima edição do DICA)
Paulo Santos |
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