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Pipocas - do campo para a "boca" do Cinema! (parte I)

pipocasQuando venha à baila o tema das pipocas (1), é quase instantânea a estalada que nos atira redondamente não para o tapete, mas para a cadeira de uma sala de cinema. Quer se queira quer não, tenha-se decidido ir ao "nimas", lá estão as ditas, uma presença demasiado intrusiva para que seja possível deixar de dar por elas. É o som quebradiço que rangem, tarda nada em coro com o poder de perturbar a meditação de um monge budista, seja quando manipuladas – o remexer insistente de moedas de cinco cêntimos num mealheiro de plástico – seja quando mastigadas – o ruminar indolente de uma manada bovina que tenha decidido pastar por ali. É também o cheiro que exalam, se em quantidade pequena até agradável e adocicado mas, em massa, impregnante e enjoativo. Mesmo um espetador algo duro de ouvido, e que padeça de um defluxo nasal crónico, se for daqueles que goste de chegar com alguma antecedência a uma sessão, decerto observará que muitos daqueles com quem terá de partilhar a viagem cinéfila vão passando-lhe em procissão profana, transportando baldes ou pacotes com o mesmo visual, apenas uns maiores que os outros, como se contivessem algo de extraordinário: uma dádiva comum, para consumo egoísta. Se ainda assim o nosso espetador hipotético for demasiado distraído, é provável que quando se descalce em casa repare que as solas dos sapatos trazem agarradas uma substância gomosa que já terá sido branca. Dando-se o caso de vir de assistir a um gore de ficção científica em 3D, é lícito possa suspeitar ter apatanhado o conteúdo de uma das várias criaturas que lhe rebentaram diante dos olhos.

Passe o exagero, quando se vá ver um filme nos dias de hoje aos locais propositadamente dedicados à sua fruição, em relação às pipocas e para que sobreviva a paixão pela 7.ª arte, recomendará o bom senso duas únicas atitudes: ou mostrar-lhes uma (sobre)natural indiferença ou, fazer como muita gente faz, comê-las simplesmente e reconhecer o seu feitiço viciante. Haverá quiçá outras soluções como aderir a um movimento de "cinemas sem pipocas", que obrigaria, estivessem aqueles dispostos a isso, aguardar que ocorram festivais ou ciclos especiais, que se regem por uma programação no mínimo anual, ou investir num bom e completo sistema de "home-cinema", o que exigirá espaço doméstico suficientemente amplo, e algum dinheiro disponível. Em qualquer destas alternativas, perder-se-á a atualidade cinematográfica, a qual, em média, pode ser recuperada em 6 meses com o lançamento de um bom número dos filmes em DVD ou, para quem, além de nenhuma piedade a atos de "vampirismo", não tenha grandes preocupações com a qualidade do visionamento, para não referir a da legendagem, pelo recurso a certos sites da internet, os quais, num jogo do gato e do rato com os controladores e os legítimos detentores dos direitos, dedicam-se a piratear tudo o que seja filme e, no caso de Portugal, colocando-os na pantalha muito antes da sua estreia comercial.

pipocas3Porém, o conluio entre as pipocas e o cinema não é nada recente, e começa poucos anos depois dos irmãos Lumiére terem registado a patente do cinematógrafo. Acontece que o alimento é incomensuravelmente mais ancião que a técnica de visualizar 24 imagens por segundo e, para que dele se fale, primeiro teve de surgir e ser cultivado o milho que lhe dá o berço. O milho das pipocas (Zea mays var. everta) é uma subespécie do milho comum (Zea mays) o qual, como principais diferenças em relação a este, caracteriza-se por apresentar grãos mais pequenos, com um menor teor de humidade, à volta de 14%, e uma superfície exterior com resistência mecânica muito superior e que raramente apresenta brechas. Simplificando o complexo de reações físico-químicas que envolve, poderá afirmar-se que a "maternidade" da pipoca começa quando é provocado o aquecimento intenso (180ºC) do grão do cereal: a água contida no seu interior vaporiza, criando uma grande pressão no seu interior; em simultâneo o amido também incluso no endosperma, antes sólido, gelatiniza tornando-se maleável. Quando a pressão do vapor de água (um valor cinco vezes superior à da existente num pneu de automóvel ligeiro) quebra a resistência da "casca", o grão então como que explode num único estampido, e o amido em contacto com o ar expande na forma de uma espuma a qual, depois de arrefecida, adquire a forma de um puff. Numa imagem, é como se a semente do milho tivesse sido forçada a desempenhar o papel de um breve "vulcão vegetal", e a pipoca propriamente dita, seja o magma acolchoado que libertou.

 

Não custará admitir que, perante a estirpe certa do cereal, as pipocas tenham sido "descobertas" fortuitamente, quando uma maçaroca tenha sido esquecida próximo do calor ardente de uma fogueira.

O milho das pipocas terá sido primeiramente domesticado no México, há cerca de 9.000 anos e, nos milénios seguintes, dali progredido para outras regiões da América Central e do Sul. As mais remotas, ou "barbudas", espigas deste género de milho, foram descobertas umas no Peru e outras no Novo México, datadas respetivamente de 4.700 a.C. e 3.600 a.C.. O seu rasto apenas volta a ser encontrado no México, no século XVI, mais precisamente pelos espanhóis de Cortes, junto do povo azteca que o usaria na decoração de chapéus cerimoniais, colares e ornamentos para as estátuas das suas divindades, como a de Tlaloc, o deus da chuva e da fertilidade. Um escrito castelhano da época refere um tipo de milho, chamado de "momochitl", que ao assar abrir-se-ia como uma flor branca.

Se a génese das pipocas, desde o princípio, está ancorada ao continente americano, foi nos Estados Unidos que a sua produção adquiriu uma expressão e dimensão excecionais, as quais se perpetuam até aos dias de hoje. Andrew Smith, em «Popped Culture: A Social History of Popcorn», afirma que foram comerciantes que, no princípio do século XIX, trouxeram do Chile para a Nova Inglaterra as sementes deste milho especial. Em pouco mais de cinquenta anos, depois de ter feito um percurso de oeste para este, velozmente foi disseminado por toda a América do Norte, de tal forma e com tanto sucesso que, em 1848, o termo «popcorn» já fazia parte do «Dictionary of Americanisms», da autoria de John Russel Bartlett. De facto, deve-se exclusivamente aos yankees a criação desta palavra, a qual é inegavelmente expressiva ao transportar consigo o som que os grãos do milho soltam ao transformarem-se em pipocas: o "pop" do estampido de uma rolha a saltar da garrafa ou, mais prosaicamente, uma detonação ou tiro.

pipocas1Em grande parte, a impressionante dinâmica alcançada pelas pipocas deveu-se ao ato da sua feitura constituir, em si mesmo, uma diversão para quem a ele assistia, como também por isso desde cedo se terem enganchado ao "braço" dos principais locais de entretenimento da altura, designadamente feiras e espetáculos de circo. A ingente popularidade granjeada por este snack, relacionou-se igualmente com a mobilidade que rapidamente adquiriu através da evolução tecnológica. Em 1885, Charles Creator, em Illionis, Chicago, inventou a primeira máquina móvel fazedora de pipocas, o que permitiu a sua produção massiva fora das cozinhas e o alcance a outros espaços como os de eventos desportivos e, paulatinamente, sobretudo às ruas e avenidas das cidades norte-americanas. As pipocas, com aquelas "pernas" e um aroma peculiar como se fosse um dedo a fazer cócegas nos narizes dos passantes, ganharam a batalha com outros snacks, como as batatas fritas, pela preferência do público.

Contudo, a entrada nos foyers dos cinemas não foi tão célere como os vendedores de pipocas desejariam. Nos primeiros tempos, os melhores estabelecimentos, que até mantinham o nome de "teatro", destinavam-se às classes mais abastadas, tinham uma decoração primorosamente luxuosa e os filmes que exibiam ainda eram mudos. Permitir que as pipocas tivessem franquia àqueles autênticos lugares de culto, não só os vulgarizaria, conspurcaria (eram, entre outros aspetos, profusamente alcatifados), como o seu desfrute deveras ruidoso perturbaria a atenção dos espetadores. Assim, os donos dos cinemas, enquanto puderam, resistiram à invasão do indomável snack.

pipocas2A partir dos primeiros filmes sonoros, a indústria da exibição cinematográfica abriu-se decididamente ao grande público, quando até aí apenas uma minoria de literatos constituía a clientela habitual. Nova oportunidade surgiu para que as pipocas fossem levadas para dentro das salas escuras mas, mesmo assim, os seus proprietários ainda continuaram hesitantes. Esta resistência somente foi quebrada nos anos trinta do século XX, quando sobreveio a Grande Depressão, e uma maneira que os mais de 13 milhões de desempregados que gerou, encontraram para ocupar o seu (muito) tempo livre foi a de encafuarem-se nas salas de cinema e atordoar os seus problemas com a magia da 7.ª arte. Naquela década, a audiência semanal dos cinemas dos Estados-Unidos chegou a atingir o impressionante número de 90 milhões de espetadores. O cinema tinha um preço acessível e as pipocas eram baratas, constituindo uma ótima fonte calórica para os mais necessitados. O "popcorn" finalmente tivera direito a passerelle de um só sentido das ruas para o hall interior de muitas salas de cinema estado-unidenses e os exibidores que não o perceberam faliram irremediavelmente.

(1) a palavra «pipoca» tem origem no termo tupi pï'poka, que significa "estalando a pele", formado pela junção de pira (pele) e poka (estourar)

(continua na próxima edição do DICA)

 

Paulo Santos
Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural

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