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Uma "gabança" nos produtos agroalimentares da Madeira

armaz lusitano1Sabe bem, numa época em que grassam novilínguas invasivas sem graça nenhuma, desde o "economês" ao "internetês", sem falar no "acordês" que vai resultando das idiossincrasias da aplicação do Acordo Ortográfico, ler o português da muito boa literatura que felizmente temos, da clássica à contemporânea, que não nos arrogamos a exemplificar com algum dos seus escritores porque seria cometer garantida injustiça pelas omissões.

Dadas as atuais circunstâncias, até haveria margem de paciência para o "futebolês", mas a (triste) figura que a seleção das quinas vai fazendo pelos estádios do outro lado do Atlântico, fará logo odiá-lo, pelo menos, até um próximo campeonato de importância equivalente.

Por isso, de quando em vez, é um grande prazer simplesmente (re)folhear o delicioso «Vocabulário Popular Madeirense» do padre Fernando Augusto da Silva e, mesmo sem qualquer critério, parar aleatoriamente nalgumas das palavras que se vão organizando sob cada letra do alfabeto.

Esta será, entre mais de uma dezena, uma obra menor do autor do magnificente «Elucidário Madeirense» (neste caso com a colaboração, no que respeita principalmente ao domínio da botânica, de Carlos Azevedo de Menezes) mas, ainda assim, sem a mínima dúvida, muito interessante e de valor inestimável para a história de uma eventual "língua madeirense".

O prefaciador deste Vocabulário, que conheceu o prelo nos anos de 1950, o cónego F.C. De Meneses Vaz, considerou-o «de utilidade porvir sobretudo ajudar os forasteiros a entender o dialecto do nosso povo, por vezes curioso e pitoresco. Muitas palavras serão corruptelas do bom português. Algumas, português bárbaro do século quinze e, outras, formadas pelo mesmo povo pela necessidade que tem de se exprimir, visto desconhecer os termos técnicos, terminologia correcta, etc.».

Vários daqueles termos terão desaparecido, outros ouvem-se sobretudo pela boca dos mais antigos, mas muitos há que fazem parte, talvez sem que se tenha plena consciência disso, da linguagem do dia-a-dia da generalidade dos madeirenses.

Provavelmente a (des)propósito do assunto que aqui trazemos, conquanto num mero esboço de exercício, ou seja, sem qualquer sombra de «chimbança» [= prosápia; atrevimento] deixemos que este texto possa ser contaminado por certas palavras retiradas deste verdadeiro relicário que é o «Vocabulário Popular Madeirense».

Ainda muito recentemente os produtos agroalimentares madeirenses, dos doces às broas e bolo de mel de cana, dos chocolates aos rebuçados, da cerveja e refrigerantes ao Vinho Madeira, do rum à poncha, da sidra ao vinagre de sidra com maracujá, «escangalharam» [= destruíram] o torpor do gosto de muitos dos visitantes da 51.ª Feira Nacional de Agricultura, tendo mesmo um ou outro ficado deveras «empandeirado» [= (adj.) diz-se do ventre inchado] de tanto terem apreciado/consumido a magnífica e muita «comerzama» [= abundância de géneros alimentícios] que lhes foi dada a provar e degustar.

 

Do «pescanço» [= namoro] havido, sabemos terem sido «emolhados» [= pôr em molhos; acumular; amontoar; arrumar] ou apalavrados promissores negócios futuros, o que só vem demonstrar, dada a grande proximidade cultural e geográfica, que o mercado do continente português revela grande apetência pelas produções agroalimentares madeirenses.

No meio deste entusiasmo e «ferramentada» [= barulho; sons produzidos por objetos que se entrechocam], não nos poderíamos «desimportar» [= desprezar; não fazer caso] de outro caso atual de sucesso, e que diz respeito ao facto de diversos produtos do portfólio da "Valvie" (os doces, entre outros, de pimpinela com canela e laranja, de maçã e Vinho Madeira, de physalis, de pera e rum, e a banana-passa) terem passado a constar do riquíssimo tesouro de sabores de Portugal inteiro, o "Armazém Lusitano", localizado no centro histórico de Vila Nova de Gaia, olhos nos olhos com a cidade do Porto.

Sobre esta loja, deixemos «lambarar» [= dar à língua descomedidamente], um pouco, a própria: «inspirado no ambiente dos antigos armazéns dos anos 20, 30 e 40 do século XX, o Armazém Lusitano pretende dar a conhecer a cultura lusa aos turistas que visitam as caves do Vinho do Porto e proporcionar aos visitantes um novo contacto com os produtos genuínos e de qualidade oriundos do seu país.

Alguns desses produtos fizeram época com marcas sobejamente conhecidas dos nossos pais e avós, artigos nacionais que mantêm a sua qualidade ímpar. Entretanto outras empresas despontaram com a mesma filosofia mas com uma abordagem mais contemporânea. Surgiram novos produtos com materiais de sempre e produtos de sempre com novos materiais e abordagens. Aqui vai poder encontrar alguns produtos regionais da ilha da Madeira (aguardente e mel de cana, licores), artesanato regional português, azeite transmontano (na forma de 0,5 l e 5l) vinhos do Porto e vinhos de mesa de referência a nível nacional e internacional e que não se encontram habitualmente nas grandes superfícies. Sim! Um mundo de descobertas, uma viagem através dos sentidos, daquilo que as terras lusas e seus criadores têm de melhor e que importa divulgar».

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Tudo o que atrás se relevou permite concluir que, sem «abagar» [= diminuir, moderar] certos constrangimentos, especialmente os que emanam da pequena dimensão e do muito afastamento da Madeira dos mega polos de consumo, os empresários do agroalimentar madeirense não têm razões para, como ocorre de quando em vez, caírem em «cramação» [= ato de lamentar-se; lastimar-se], antes sim, porque dispõem de produções excelentes, deverão «acatrafilar» [= agarrar; prender com violência] todas estas oportunidades que se lhes oferecem. São de facto oportunidades imperdíveis de comercialização e crescimento das vendas que não se deverão «estarraçar» [= estragar; desperdiçar]. Só assim também será possível dar um sonoro «pampulhão» [= pancada; empurrão] aos descrentes e incrédulos das capacidades dos empresários madeirenses, que há muito deixaram de ser «concas» [= artífice ou operário pouco perito; desleixado].

É ou não é? Estes sinais são ótimos motivos para que todos nós tenhamos justa «gabança» [= ação de gabar-se; elogiar-se] das empresas e das produções agroalimentares da Madeira.

 

Paulo Santos
Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural

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