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Grupo de Folclore e Etnográfico da Boa Nova
O carro de cesto real

boa novaAntes dos transportes terrestres de forças motoras aparecerem no Arquipélago da Madeira, prevaleceu durante largo tempo os carros de tração animal e os de força humana.

Dentro desses veículos, temos, por um lado, os de transporte de mercadorias ou de componentes relacionados com as atividades de uma comunidade (os mais avoengos) e, por outro, o transporte de pessoas, o qual surgiu em pleno século XIX1.

No que concerne a esta última conjuntura, os mais usuais eram o «trem» tipo «char-à-banc», o carro de bois (o mais comum e duradouro), o carro de cesto puxado a bois e o carro americano puxado a três cavalos (funcionou entre 1896 e cerca de 1915)2. Isto no que diz respeito ao transporte de tração animal. Na concernente aos movidos pela força humana, temos o carro de cesto e a rede.
A paróquia de Santa Maria Maior também teve os seus carros de cesto puxados a bois ou por homens.

O caso que optámos por narrar, como uma das fontes credíveis da nossa investigação, tem a ver com a visita ao Arquipélago da Madeira de suas Majestades os Reis de Portugal, em 1901.

No último dia da visita da Realeza à ilha, no dia 25 de junho, o Rei D. Carlos I e a Rainha D. Maria Amélia foram à Quinta da Choupana, ao Caminho do Meio, a convite do seu proprietário, o Sr. Visconde de Cacongo, onde se realizou uma memorável festa. Na ocasião de brindar, a Sua Majestade o El-Rei, proferiu em apreço as seguintes palavras: jamais riscaria da sua memória e do coração a boa e saudosa lembrança de tão franca hospitalidade3.

No final da mesma, os Monarcas regressaram à cidade no carro de cesto, o qual foi oferecido às Suas Majestades pelo Sr. Visconde de Cacongo: commodamente recostados num elegante carro de vimes forrado de seda azul, e em todo o itinerário, milhares de bôcas saudavam a passagem da comitiva real. (...). Em seguida os bombeiros com o seu natural desembaraço e presteza desatrellaram o gado do carro real; ataram-lhes cordas e arrastaram-no em triumpho, com um enthusiasmo jamais visto4.

 

João José Rodrigues Leitão, 1.º Visconde de Cacongo (1843-1925), era proprietário de uma extensão de terreno que ia desde do Pico do Infante até à costa. Nessa herdade possuía, além da Quinta da Choupana (atual Quinta do Pomar), a casa do Pico do Infante - estâncias de lazer e a Quinta Nossa Senhora Mãe dos Homens (atual Quinta Mãe dos Homens – Gardens Village), no Caminho Mãe dos Homens - residência domiciliária.

Tanto o 1.º Visconde de Cacongo, como o seu sobrinho Carlos Ernesto Rodrigues Leitão, 2.º Visconde de Cacongo (1978/1958), conservaram durante algumas décadas no seio da família os transportes de carro de cesto puxado a bois ou por homens.

Tiveram primeiramente como boieiros Venâncio Correia e o seu filho Januário Correia era o candeeiro. Mais tarde, o varão toma o lugar do progenitor e Jordão Augusto Gouveia ocupa o lugar de candeeiro5.

boa nova trab

Danilo Fernandes

1 Álvaro Vieira Simões; Jorge Sumares e Iolanda Silva (2002), Transportes na Madeira, Governo Regional da Madeira, Direção Regional dos Assuntos Culturais, Funchal, p. 36.
2 Idem.
3 Cyriaco de Brito Nóbrega (1901), A Visita de Suas Majestades os Reis de Portugal ao Archipelago Madeirense, Funchal, Typographia «Esperança», p.87.
4 Idem, p.p. 88 e 89.
5 Informação cedida por Eleutério Gonçalves Martins de Nóbrega, sítio Acciaioli, Santa Maria Maior.

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