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Grupo de Folclore da Ponta do Sol
A corsa puxada a vaca

ponta do sol1A corsa era um carro rústico sem rodas, para o transporte de pessoas e bens. Provavelmente, surgiu no início do século passado, com o aparecimento de caminhos calcetados com pedras uniformes.

A corsa era feita recorrendo a dois barrotes de madeira rija, atravessados nas extremidades por travetas, que, em alguns casos, também se cruzavam, para dar maior estabilidade e segurança à carga que iria suportar.

A parte da frente era sustentada por duas ou três travetas que seguravam e escoravam o peso nas descidas com maior inclinação.

Em princípio, as corsas só eram usadas no sentido descendente, sendo no sentido inverso levadas às costas do seu utilizador.

Então, as corsas começam a ser puxadas por uma ou duas vacas, conforme as exigências de produção e as possibilidades do seu proprietário.

Na Ponta do Sol era mais comum a corsa puxada a uma vaca. A canga que assentava no carrulo da vaca prendia ao pescoço pelos canzis, ligados por um entrançado de fiado, do qual pendia o guizo que, segundo os movimentos da vaca, ia badalando, anunciando a sua passagem e afugentando as moscas. A canga era ligada à corsa pelos conhecidos "paus da canga".

O Sr. Manuel Correia Andrade, nascido a 4 de janeiro de 1893, casou no ano que estava na tropa e seguidamente escolheu a profissão de "boieiro", ou seja, comprou uma vaca robusta, a "Profeta", e dedicou a sua vida a fazer fretes de carga, desde a serra até aos barcos que a conduziam ao seu destino, o Funchal. Porém, antes de entrar no cais da Ponta do Sol, passava pelo Posto da Alfândega, que funcionava numa casa sobranceira ao mar, onde atualmente se encontra um pequeno bar e restaurante.

 

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Este "boieiro", com a sua "Profeta", na descida transportava lenha de talha, batatas, semilhas, cana-de-açúcar, vinho, etc. No regresso, trazia petróleo, sabão, sal, massa, açúcar e todos os produtos comercializados nas "vendas".

A "Profeta" do Sr. Manuel também transportava doentes, idosos e pessoas ilustres da vila da Ponta do Sol.

Recordamos, com emoção, as viagens do Reverendo Sr. Padre João Vieira Caetano, que foi Cura e Pároco da Ponta do Sol entre 1913 e 1967, data do seu falecimento. Entretanto, adquiriu um pequeno terreno, nos Terreiros de Baixo do Lombo de S. João e ali mandou construir uma pequena casa em madeira, coberta a restolho, conhecida pela "casa dos pinheiros", onde passava o Verão.

Em fins de julho, o Sr. Padre Caetano, subia da Vila para a serra, sentado numa cadeira de vimes, amarrada à corsa, puxada pela "Profeta" do Sr. Manuel. Durante o mês de agosto, todas as manhãs, lá iam e vinham, "os três" a caminho das Capelas de Nossa Senhora do Monte, nas Terças, São João, no Lombo de São João ou Capela particular, de Santo António, que existia no Pomar de Dom João. O Sr. Vigário celebrava a Missa, tudo em Latim. O boieiro assistia e comungava, enquanto a vaca descansava amarrada ao tronco de uma árvore. No final, era o regresso pelo mesmo caminho.

Era uma doçura presenciar estas viagens, tudo com muita paciência e respeito. O Sr. Manuel de Andrade apenas usava a agulhada para indicar à vaca, direita ou esquerda, subida ou descida. Enquanto, ia balbuciando: "Anda vaca com Deus".

 

Teresinha Santos
(Informação: Eulália Correia Andrade)

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