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O transporte rodoviário de produtos vegetais – parte III

transporte5Confesso que o antecipara quando reabri o ficheiro para prosseguir este tema, mas o esperado não aconteceu logo. Tive que alinhavar algumas linhas, subir e descer o "elevador" de texto para reler o que já escrevera, e só quando pousei o cursor no parágrafo em que descrevia algo semelhante a uma "montanha de banana sobre rodas" a calcorrear impávida e serena as ruas do centro do Funchal, saltou-se-me para o ombro um dos seus penduras.

Não um qualquer, mas o que já fizera uma inusitada aparição na parte II deste artigo, conquanto alojando-se noutra parte do corpo do escriba. Lá estava ele, confirmava-o o reflexo no ecrã do computador, sentado à beira da omoplata esquerda, as pernas bamboleantes, e o resto de cigarro, que se calhar já fazia parte da boca, a expelir uns espectros de fumo.

Não demorou a retomar o tema da sua conversa anterior: «olhe senhor, até 1911, o Governo Civil foi a entidade responsável pela atribuição de licenças de circulação automóvel, concedidas por alvará, sendo da sua responsabilidade os primeiros 15 registos, o que mostra como era reduzido o parque automóvel até àquela data». Pigarreou por um instante, e retomou: «Entre 1912 e 1926, de acordo com os livros de Registo de Veículos da Comissão Técnica de Inspecções, Provas e Exames de Automóveis e Condutores da Circunscrição da Madeira, foram realizados 675 registos».

Sem perder o fôlego continuou: «olhe senhor, apesar da evolução dos meios de transporte, durante o primeiro quartel do século XX conviviam ainda transportes de tração animal ou humana, e a Câmara Municipal do Funchal continuava a regulamentar a forma como deviam ser arrumadas zorras, corças e corções. Foi a dinâmica do turismo que foi obrigando à renovação da malha urbana e à expansão de novas vias de comunicação para o interior da Ilha».

Disse-lhe que agradecia todas aquelas preciosas informações, mas que teria sem mais delongas de "fechar" este artigo, ou as coordenadoras do DICA dar-me-iam, o que não seria a primeira vez, um valente dum puxão de orelhas.

Interrompeu-me e disparou, a ponta do cigarro inclinada para cima como o pescoço: «olhe senhor, o campo é que tinha de vir até à cidade, e esta foi crescendo e crescendo em população, e as necessidades de abastecimento aumentando ao mesmo ritmo. As estradas foram surgindo ao longo tempo, e a partir de determinado momento, quem tinha um carro era rei. Foi assim que se criou uma nova categoria de agentes no comércio agrícola, os intermediários, que iam pelo campo arrematar produtos e depois vinham vendê-los aos mercados do Funchal».

Despedi-me apressadamente, sem não antes prometer-lhe que o convocaria na próxima semana para continuar a escutar as suas lições.

Quanto à utilização de viaturas isotérmicas ou com sistema de frio, o já citado Eng.º Paulo Baptista refere: «O enfoque na refrigeração durante o transporte é para manter a integridade do produto evitando as flutuações de temperatura. Não é tarefa do veículo de transporte realizar a refrigeração inicial do produto carregado. Os equipamentos de frio, instalados nos veículos de transporte, não são desenvolvidos com esse propósito e por isso não têm capacidade suficiente para fazer baixar a temperatura do produto. Tendo como pressuposto que o produto é carregado no veículo de transporte à temperatura correta, o sistema de refrigeração tem apenas de manter a temperatura do ar ambiente de modo a proteger o produto de qualquer alteração de temperatura.

Existem algumas fontes de calor que o sistema de refrigeração deve ser capaz de remover. Entre estas podem ser consideradas:

• A temperatura ambiente elevada;

• A massa de ar quente dentro do contentor de carga;

• O calor armazenado na estrutura do contentor de carga;

• Respiração dos produtos.

(sobre o aspeto da respiração dos produtos) Muitas frutas e vegetais não morrem na colheita e continuam a respirar, consumindo oxigénio e produzindo dióxido de carbono. Este processo natural gera calor e o calor gerado aumenta a velocidade do próprio processo. Muitas vezes este é acompanhado pela produção de pequenas quantidades de etileno que por sua vez também atuam como catalisadores do processo de maturação e consequente geração de calor. É assim importante que a respiração seja limitada ao mínimo possível. Isto é possível se for assegurado que a produção é completamente refrigerada à sua temperatura ótima antes de carregar o veículo. Esta temperatura ótima varia bastante consoante o produto».

O conhecimento da sensibilidade dos hortofrutícolas aos diferentes fatores e o conhecimento das condições ótimas de conservação são essenciais para estabelecer condições operacionais que assegurem a preservação da qualidade dos produtos e consequentemente também da sua segurança alimentar. No entanto, é importante ressalvar que a segurança alimentar não depende exclusivamente da manutenção do frio mas também de todos os outros perigos potenciais nas fases de produção e comercialização e que o frio naturalmente não elimina.

Existem dois códigos do Codex Alimentarius que apresentam boas práticas específicas relativas a produtos hortofrutícolas: O CAC/RCP 44-1995 – Código Internacional de Boas Práticas Recomendado de Higiene para a Embalagem e o Transporte de Frutas e Hortaliças Frescas (CAC, 1995) e o CAC/RCP 53-2003 – Código Internacional de Boas Práticas de Higiene para as Frutas e Hortaliças Frescas (CAC, 2003). Abaixo apresentam-se as boas práticas que constam destes códigos no que concerne ao armazenamento e transporte deste tipo de produtos.

No que se refere ao armazenamento e transporte de hortofrutícolas desde a exploração agrícola até ao estabelecimento de embalamento, é pretendido que as frutas e hortaliças frescas sejam armazenadas e transportadas em condições que reduzam ao mínimo a possibilidade de contaminação microbiana, química ou física. Para tal é recomendado a adoção das seguintes práticas:

• As instalações de armazenamento e os veículos utilizados para o transporte das colheitas recolhidas deverão ser construídas de maneira a que reduzam ao mínimo os danos às frutas e hortaliças frescas e se evite o acesso de pragas;

 

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Deverão ser feitos de materiais não tóxicos que permitam uma limpeza fácil e minuciosa;

• Deverão ser construídos de maneira a que se reduzam as oportunidades de uma possível contaminação por objetos físicos como por exemplo vidro, madeira, plástico;

• As frutas e hortaliças frescas que não sejam aptas para o consumo humano devem separar-se antes do armazenamento e transporte. Aquelas cuja inocuidade não possa garantir-se mediante a sua elaboração posterior deverão eliminar-se de maneira apropriada para evitar a contaminação das frutas e hortaliças frescas ou dos consumos agrícolas;

• Os trabalhadores agrícolas devem eliminar a maior quantidade possível de terra das frutas e hortaliças frescas que sejam armazenadas ou transportadas. Deve-se ter o cuidado de reduzir ao mínimo os danos físicos às culturas durante este processo;

• Os veículos de transporte não deverão ser utilizados para o transporte de substâncias perigosas a menos que tenham sido limpos adequadamente, e caso necessário desinfetados, com o fim de evitar a contaminação cruzada.

O maior ou menor grau de exigência quanto às condições do transporte de hortofrutícolas da exploração agrícola até uma central de processamento e/ou transformação, dependerá sempre e sobretudo das especificações requeridas pelos clientes, naturalmente estreitamente relacionadas com os seus objectivos e propósitos.

Tome-se como exemplo de um grau superior de exigência, uma empresa de "4ª gama", a "Vitacress", que trabalha exclusivamente hortícolas, seja individuais ou em misturas para sopas ou para saladas como: espinafre, acelga, rúcula, rúcula selvagem, canónigos, agrião de água, tomate cherry, tomate pera, cenoura, pimentos e rabanetes.

De acordo com esta: «Assim que o processo de colheita está finalizado, o nosso objectivo é passar a maior frescura para os nossos clientes através da simples filosofia de «Keep it cold – move it fast» – «mantém-no fresco – move-o rápido»». Mais define como política de qualidade que «o fator mais importante para manter a frescura é o rápido arrefecimento pós-colheita e da manutenção da frescura através da cadeia de fornecimento. Usamos o arrefecimento por vácuo em todas as nossas quintas, com o objectivo de arrefecer as colheitas abaixo dos 5ºC num tempo limite de 60 minutos após colheita».

Neste caso, o transporte dos vegetais até à unidade fabril terá de ser realizado em viatura com caixa isotérmica, se a distância for curta, ou com caixa refrigerada, quando aquela for mais longa.

Ainda, no trânsito entre o campo (neste caso, pomares) e uma central fruteira, atente-se no Código de Boas Práticas de Higiene no Processamento de Citrinos, iniciativa da União de Produtores Hortofrutícolas do Algarve (UNIPROFRUTAL), que quanto a esta operação refere: «as caixas de carga dos veículos de transporte devem ser mantidas limpas e em boas condições de forma a proteger os citrinos de possíveis contaminações; as caixas de carga não devem ser utilizadas para o transporte de quaisquer outras substâncias que não sejam géneros alimentícios sempre que disso possa resultar a sua contaminação. Destaque-se em especial o perigo de matérias como produtos químicos, estrumes, ou outras, os quais não podem ser transportados nas mesmas caixas de carga destinadas a produtos alimentares. Se por qualquer motivo houver transporte de produtos não alimentares num meio destinado ao transporte de produtos alimentares, deve proceder-se a uma limpeza rigorosa e adequada antes de tornar a transportar os produtos alimentares. Não se recomenda o transporte conjunto com outros alimentos. Caso tal aconteça, os produtos deverão, sempre que necessário para garantir a segurança e salubridade dos géneros alimentícios, ser devidamente separados para assegurar a protecção contra o risco de contaminação. A colocação e protecção dos géneros alimentícios dentro das caixas de carga deve ser efetuada de forma a reduzir ao mínimo o risco de contaminação».

Outro aspeto a que este Código dá particular importância é o que se refere ao comportamento dos próprios condutores: «os condutores dos veículos que transportam a fruta devem estar bem informados quanto às instruções que garantam um transporte conveniente do produto: condução tranquila; bom estado dos amortecedores e suspensão dos veículos; velocidade reduzida; viragens sem brusquidão; caixas devidamente colocadas e fixadas a fim de evitar movimentos excessivos e/ou quedas das mesmas. Os trabalhadores na recepção devem: comprovar que a carga chega bem colocada no veículo, sem caixas deslocadas ou viradas. As caixas devem estar em boas condições e presas de forma segura. Se existir alguma caixa deslocada ou solta deve ser revisada especialmente para comprovar a integridade do seu conteúdo; comprovar a ausência de sujidade, terra, pedras ou outros resíduos nas caixas; o próprio veículo deve estar limpo de lama, terra, substâncias e cheiros estranhos, sobretudo internamente, mas também externamente».

(continua)l

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Paulo Santos
Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rura

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