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O transporte rodoviário de produtos vegetais – Parte II

transporte5Quando estava a ultimar a revisão dos materiais para continuar a desenvolver este tema, de súbito veio sentar-se-me na nuvem de pensamentos, que há quem melhor designe por "consciência", e logo num dos lugares da frente, aquele mesmo homem que observara há mais de vinte anos, então aprantado (sim!, um termo bem madeirense, eternizado no delicioso Vocabulário Popular da Madeira do Padre Fernando Augusto da Silva), numa espécie de poltrona verde a deslizar pela Avenida Zarco abaixo.

O mesmo que, vendo-me espantado a olhar para a carrinha de "caixa aberta" onde vinha empoleirado, terá dito para os seus botões «olha aquele parvo, nunca viu um carro de banana».

Não sei o seu nome, nem ele mo disse, mas também não será importante para a colação. Mas lá estava o dito, o rosto tisnado pelo sol bom da Ilha, ainda o borrão de cigarro preso entre os lábios, e logo disparou «o senhor vai escrever sobre essa coisa do transporte de verduras do campo para a cidade, mas olhe que para o haver, primeiro veio o caminho e depois o carro...».

Parei, para refletir sobre aquele aparente enigma, de súbito do género "o que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha", mas o homem não deixou e prosseguiu «...olhe que o Governador Civil José Silvestre Ribeiro, em ofício de 1850, dizia ao Ministério do Reino considerar "sem estradas a Ilha da Madeira"...».

Sem pausa que se notasse, continuou «...em junho de 1912 o presidente da Junta Geral, em reunião da Comissão administrativa, admite que é de tal forma lastimável o estado de atraso em que se encontra o distrito em matéria de viação que é necessária a construção de estradas...».

Depois de uma ligeira pausa para humedecer os lábios, a pirisca do cigarro sempre na mesma posição, continuou «mas olhe, o primeiro automóvel que circulou no Funchal, foi em 1904, um Wolseley dum tal Harvey Foster, que veio passar uns meses de férias com a família aqui à nossa Ilha.....».

Acelerando, com muito mais ímpeto do que naquele carro provavelmente atingiria, percebi dizer «...mas o primeiro registo automóvel realizado na Madeira foi o de um Dion Bouton, em 1907, da Empresa Madeirense de Automóveis, constituída nesse mesmo ano e à qual a Câmara Municipal do Funchal faz a primeira concessão de exploração dos transportes públicos...».

Estamos a gostar muito desta história da História dos transportes na nossa terra, deixemo-la por agora, e retomemos o tema a que nos propusemos.

Consultando os trabalhos do Eng. Paulo Baptista sobre esta área, os quais reputo de elevada qualidade, nomeadamente "Higiene e Segurança Alimentar no Transporte de Produtos Alimentares" e "Sistemas de Segurança Alimentar na Cadeia de Transporte e Distribuição de Produtos Alimentares", será importante reter o seguinte:

"O manuseamento pós-colheita (onde se integram as operações de transporte), dos produtos agrícolas depende da especificidade do produto, do mercado a que se destina e do circuito de distribuição.

No entanto, podemos considerar alguns objetivos transversais, a ter em conta em todas as cadeias de manuseamento pós-colheita. Todas as cadeias de manuseamento pós-colheita de produtos hortofrutícolas devem ser concebidas, dimensionadas e operadas de forma a evitar perdas excessivas e garantir a qualidade e segurança dos produtos. Todos os sistemas de manuseamento pós-colheita devem satisfazer os seguintes requisitos:

• Evitar danos mecânicos;

• Minimizar as perdas de água;

• Minimizar a atividade metabólica dos produtos;

• Evitar contaminações e minimizar a atividade microbiana;

• Garantir a segurança alimentar."

Os principais perigos potenciais em termos de segurança alimentar no transporte de produtos alimentares são:

"• Desenvolvimento microbiano por exposição do produto a uma temperatura elevada na carga, durante um tempo excessivo;

• Desenvolvimento microbiano por inadequado arrefecimento prévio do produto e/ou do veículo/contentor de transporte;

• Desenvolvimento microbiano por inadequada manutenção da temperatura durante o transporte;

• Desenvolvimento microbiano por exposição do produto a uma temperatura elevada na descarga, durante um tempo excessivo;

 

• Contaminação física devido à má manutenção da estrutura do veículo/contentor de transporte;

• Presença de água no veículo/contentor de transporte que promova condições mais favoráveis ao desenvolvimento microbiano no produto;

• Contaminação por perda de hermeticidade das embalagens, derivada da má manipulação;

• Contaminação química resultante da presença de substâncias contaminantes, incluindo odores;

• Contaminação (microbiológica e/ou física e/ou química) devido à falta de higiene dos veículos de transporte;

• Contaminação (microbiológica e/ou física e/ou química) devida à falta de higiene dos locais de carga e/ou descarga."

De molde a minimizar a ocorrência dos perigos enunciados, é também possível enumerar um conjunto de medidas preventivas que podem ser consideradas para minimizar a probabilidade de ocorrência desses perigos:

"• Efetuar a carga do produto em condições de temperatura adequadas (e.g. cais de carga refrigerados);

• Assegurar a estabilização térmica do produto à sua temperatura de conservação antes da expedição do produto;

• Colocar a carga no veículo/contentor de forma a permitir uma adequada circulação do ar;

• Verificar a temperatura do produto à carga;

• Verificar as temperaturas do veículo/contentor aquando da receção do transporte para carga;

• Verificar a temperatura do veículo/contentor durante o transporte;

• Calibrar as sondas de temperatura utilizadas na monitorização de temperaturas no transporte;

• Assegurar a manutenção do sistema de refrigeração do veículo/contentor;

• Verificar a temperatura do produto à receção;

• Efetuar a descarga do produto em condições de temperatura adequada (e.g. cais de carga refrigerados);

• Após a descarga, colocar o produto armazenado em câmaras à temperatura correspondente à conservação do produto;

• Verificar o estado de manutenção do veículo/contentor aquando da receção para carga;

• Verificar o adequado estado de higiene do veículo/contentor aquando da receção para carga;

• Cumprir as boas práticas de manipulação de forma a assegurar a integridade das embalagens dos produtos alimentares;

• Utilizar embalagens adequadas para assegurar uma proteção eficaz do produto durante a realização, em condições normais, das operações de transporte e distribuição;

• Evitar sobrecargas, limitando a altura de sobreposição de embalagens no transporte;

• Assegurar o cumprimento dos programas de limpeza, desinfeção e manutenção dos veículos/contentores;

• Assegurar o cumprimento dos programas de limpeza, desinfeção e manutenção dos locais de carga e descarga de produtos alimentares, e de todas as outras áreas onde ocorre a manipulação de produtos alimentares."

Nota: este texto contou com a preciosa ajuda, no que à matéria da história dos transportes na Madeira se refere, de Maria de Fátima Abreu, através do seu trabalho "Memórias: O Funchal com «viação acelerada»".


(continua)

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  fotos: ARM

 

Paulo Santos
Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural

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