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O LRVSA no apoio ao diagnóstico e tratamento de infeções bacterianas do trato urinário de cães e gatos

Muitos dos tutores de animais de companhia (cães e gatos) já terão levado o seu animal ao veterinário na sequência de uma infeção urinária, patologia muito comum nestes animais, embora nem sempre se manifeste. Aliás, muitas vezes os seus sintomas são confundidos pelos tutores como mau comportamento dos seus animais, pois devido à maior frequência da micção do animal (ver figura 1) e até incontinência, estes muitas vezes fazem-no em lugares não adequados, além de acusarem alguma inquietação.

As doenças do trato urinário podem ocorrer em qualquer idade, mas são mais preocupantes quando ocorrem no trato urinário inferior dos gatos ou de animais de idade mais avançada sobretudo quando em concomitância têm outros problemas, como diabetes ou doenças prostáticas.

Existem vários tipos de infeções que podem afetar a bexiga e a uretra dos animais, que se não forem tratadas correta e atempadamente podem evoluir para quadros de nefrite, de cistite ou de cálculos urinários.

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Fig. 1 - Micção espontânea de animais de companhia (cães e gatos) 

Quando são infeções de origem bacteriana (as mais frequentes em animais) há vários agentes causais que podem ser isolados das amostras de urina colhidas assepticamente pelo clínico (ver figura 2), processo fundamental para a fiabilidade do resultado laboratorial. Uma vez colhidas, as amostras de urina (de volume recomendado entre os 2,5 e 10 ml) devem ser enviadas o mais rapidamente possível para o laboratório. Caso não seja possível no imediato, a amostra deve ser mantida em refrigeração num máximo de 24 horas entre a coleta e o processamento da análise. Este procedimento é muito importante para evitar a deterioração celular e a proliferação bacteriana.

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Fig. 2 – Colheita de amostra de urina (por cistocentese) num cão  

Após a receção das amostras no LRVSA, segue-se a análise das mesmas no Laboratório de Bacteriologia mediante a cultura da urina em meios de agar, para crescimento de agentes bacterianos (ver figuras 3, 4 e 5).

Entre eles, incluem-se com maior prevalência microrganismos Gram positivos como Staphylococcus spp., Streptococcus spp. (ver figura 2), e Enterococcus spp.; e Gram negativos como Escherichia coli (principal agente etiológico de infecção urinária nos animais), Proteus spp. (ver figura 3), Klebsiella spp., Pseudomonas spp. (ver figura 4) e Enterobacter spp., entre outros.

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Fig. 3 – Staphylococcus aureus (esq.ª) em meio de agar com manitol e Streptococcus spp (dt.ª) em meio de agar sangue 
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Fig. 4 – Escherichia coli (esq.ª) em agar Macconkey e Proteus spp (dt.ª) em agar sangue  
 
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Fig. 5 – Pseudomonas spp (esq.ª) em meio nutritivo e Klebsiella spp (d.ta) em agar Macconkey

Após a avaliação microbiológica e identificação do agente patogénico, por métodos qualitativos, procede-se igualmente, e sobretudo se solicitado pelo médico veterinário, ao correspondente antibiograma, Teste de Sensibilidade aos Antibióticos – ATB (ver Fig. 6), que auxiliará o clínico na prescrição do antibiótico mais adequado ao tratamento do animal com infeção urinária, ou seja garantirá que o animal doente seja submetido à terapêutica mais eficaz.

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Fig. 6 – Testes de Sensibilidade aos Antibióticos de Staphylococcus spp (esq.ª) em agar Mueller Hinton e de Streptococcus spp (dt.ª) em agar Mueller Hinton com sangue de carneiro 

No que respeita ao procedimento, é fácil e rápido efectuar um ATB em placas de Pétri: semeia-se uma suspensão da cultura bacteriana pura a testar em meio agar de Mueller Hinton, e intervalando-os em 2,5 cm, depositam-se discos de difusão de 6,5 mm de papel absorvente impregnados com uma determinada concentração de antibiótico (identificado no disco), distribuindo-os em círculo na superfície do meio agar (ver Fig. 7). Após a incubação das placas entre 20 a 24 horas numa estufa a 37ºC, observa-se a inibição ou crescimento dos halos que se formam em redor de cada disco (ver Fig. 7), e através da mensuração do seu diâmetro (em mm) é que se determina a classificação clínica dos antibióticos: sensíveis, pouco sensíveis ou resistentes – tendo em conta as recomendações e padrões internacionais em vigor, como os do National Committee for Clinical Laboratory/Clinical and Laboratory Standards Institute (NCCL/ CLSI).

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Fig. 7 - Discos de difusão e halos de inibição dos antibióticos

Infelizmente, e de acordo com estudos nacionais e internacionais, tem-se verificado que o tratamento das infecções do trato urinário tem apresentado dificuldades devido ao aumento de resistência das bactérias aos antibióticos usados na rotina clínica.

Por isso, tendo em conta a multirresistência de alguns géneros de bactérias com potencial zoonótico (como a disseminação de resistência da Escherichia coli, havendo mesmo evidências de transmissão cruzada entre seres humanos e cães) ressalta-se, no contexto, a evidência da importância da contribuição do médico veterinário e do papel relevante do LRVSA em termos epidemiológicos, na nossa Região.

 

Sílvia Vasconcelos
Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural

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