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A pesquisa de microrganismos causadores de otites em animais no LRVSA

As otites são patologias inflamatórias relativamente comuns nos animais, pelo que é habitual o recurso dos tutores aos médicos veterinários, sobretudo quando se apercebem de desconforto auricular no seu animal, como dor no toque ao ouvido, secreção auricular (figuras 1 e 2), inclinação da cabeça ou comichão frequente dos ouvidos (figura 2) ou mesmo alterações neurológicas, falta de equilíbrio e de orientação. ​

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Figura 1 – Otite em cães (sinais e exame clínico) 

Os sinais e sintomas evidenciados pelos animais induzem à suspeita da patologia, porém, o seu diagnóstico requer de outros exames complementares, como a otoscopia (figura 1), a citologia auricular, biopsia, radiografia e/ou a cultura microbiana e antibiograma. Estes exames são requeridos para se apurar a causa primária da doença, dado que as otites são afeções multifatoriais, às quais podem estar subjacentes fatores predisponentes (como orelhas pendentes, por exemplo), mas também tumores, alergias, parasitas ou corpos estranhos, cuja inflamação pode ser secundariamente intensificada por bactérias e leveduras. 

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Figura 2 – Otites em gatos (sinais e sintomas) 

Ante estas últimas suspeições microbiológicas, é comum que os clínicos remetam esfregaços auriculares para o Núcleo de Patologia Veterinária (NPV) do Laboratório Regional de Veterinária e Segurança Alimentar (LRVSA), mais concretamente para o Laboratório de Microbiologia e para o Laboratório de Micologia Clínica, para identificação dos agentes causais da doença.

Mas há vários tipos de otites, conforme as estruturas auriculares envolvidas: a otite externa (a mais comum em cães), a otite média e a otite interna, estas últimas muitas vezes extensões da primeira e que podem ter causas diferenciais entre si mesmo no que respeita aos microorganismos causais. Por exemplo, a levedura Malassezia pachydermatis (figura 3) e a bactéria Pseudomonas spp (figura 4) são os agentes infeciosos mais frequentemente encontrados em otites externas de cães, agudas ou crónicas, respetivamente.

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Figura 3 – Culturas de microrganismos causadores de otites - Pseudomonas spp (esq.) e Staphylococcus spp (dta.)  

Mas há outros, igualmente relevantes, que ocorrem em quadros de otites de cães e de gatos, como Staphylococcus intermedius e Staphylococcus aureus, relacionados sobretudo com otites externas agudas, seguidos de Streptococcus spp., Escherichia spp e Proteus spp. Também são descritos em alguns estudos o isolamento de microrganismos como Bacillus sp., bacilos gram-negativos não fermentadores, Streptococcus sp., Micrococcus sp., entre outros, em otites externas. 

 

No entanto, há que referir - por ser relevante sob o ponto de vista clínico e para uma correta interpretação de resultados laboratoriais - que alguns estudos sugerem a presença de uma microbiota normal no ouvido, sobretudo no ouvido médio (o menos estudado, por ser de acesso mais difícil), constituída por enterobactérias, estafilococos e leveduras. No que respeita a esta última, que geralmente decorre de uma otite externa crónica, os microrganismos mais encontrados na otite média são os Staphylococcus intermedius, Staphylococcus sp. e Pseudononas sp.

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Figura 4 – Cultura de microrganismos causadores de otites – Candida spp (esq.) e Malassezia pachydermatis (imagem microscópica, à dta.) 

Após o isolamento e identificação de microrganismos, procede-se no laboratório ao correspondente teste de sensibilidade aos antibióticos (TSA) (figura 5), para se apurar a substância farmacológica (no caso, antibiótico) mais adequada a combater o agente identificado na infeção, através de um método de difusão em ágar. Alguns dos antibióticos de primeira linha mais usados no tratamento de otites em animais incluem a gentamicina, enrofloxacina e neomicina com polimixina B, de acordo com alguma bibliografia, mas há outros também amplamente utilizados na prática clínica e que se testam no laboratório, sobretudo quando requeridos especificamente pelo clínico.

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Figura 5 – Teste de sensibilidade aos antibióticos (TSA) 

Ainda de acordo com alguns estudos realizados in vitro, os antibióticos apontados como menos eficazes em casos de otites em animais são a eritromicina, penicilina, clindamicina, tetraciclina e ampicilina.

Desta forma, a realização de um teste de sensibilidade é muito importante para que o médico possa escolher, ou mesmo alterar, a terapêutica definida para a doença em causa, sendo desta forma um grande auxílio sobretudo na resolução de casos crónicos ou refratários ao tratamento. Por outro lado, além do contributo para o sucesso do tratamento, a realização de antibiogramas em laboratório é um grande contributo para racionalização do uso de antibióticos, que é fundamental para a salvaguardada da saúde pública na nossa região, na qual o LRVSA assume um papel determinante na nossa Região.


Sílvia Vasconcelos
Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural

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