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Boas práticas na Exploração – perigos físicos na alimentação de bovinos

Os animais necessitam de ser alimentados com uma dieta completa apropriada à sua idade e à sua aptidão (leite ou carne). Esta deve ser disponibilizada em quantidade suficiente para a manutenção de uma boa sanidade, satisfazendo as suas necessidades nutricionais e a promoção do seu bem-estar.

Os alimentos devem ser armazenados em locais apropriados, em ambiente fresco e seco, protegidos de qualquer contaminação ou degradação. Devem ainda ser armazenados separadamente de quaisquer produtos químicos (produtos veterinários, produtos de limpeza, etc.), protegidos de contaminação por lixos e outros detritos e devem ser implementadas medidas de controlo de pragas que possam estragar ou contaminar os alimentos para os animais. É também importante manter os estábulos adequadamente limpos e livres de restos de alimentos e da acumulação de outras sujidades, tais como lixo, arame e plástico, que podem ser nocivos para os animais, nomeadamente pela sua ingestão.

No caso de adquirir os alimentos a terceiros, é importante fazer uma boa escolha de fornecedores, optando por empresas com boas práticas de fabrico implementadas, nomeadamente o controlo da presença de perigos físicos nos seus produtos.

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Figura 1 - Prego, gancho e parte de parafuso que estavam no interior dos compartimentos gástricos de um bovino leiteiro abatido na Região. O animal estava em má condição de carnes, com abcessos no fígado e com uma reticuloperitonite crónica. 
A presença de lixo na exploração, quer seja nos estábulos, nas zonas de armazenamento ou mesmo nas pastagens, aumenta o risco de os animais ingerirem objetos que lhes poderão causar lesões. A baixa sensibilidade gustativa do bovino adulto (língua e lábios) e o hábito de mastigar sumariamente os alimentos leva-os a ingerir uma grande variedade de corpos estranhos que estejam presentes – arames e/ou pregos (fig.1), que ao atravessar a parede do rúmen (ou retículo) podem chegar ao coração e matar os animais, sacos de plástico ou os cordões (fig.2) que amarram os fardos, que podem asfixiar ou bloquear o estômago, objetos de vidro que podem provocar lesões na boca, tetos e nos membros, etc.
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Figura 2 - Rolhão de cordões de plástico que estava alojado nos compartimentos gástricos de um bovino leiteiro abatido na Região. O animal estava em má condição de carnes. Também se podiam encontrar pedras no interior dos estômagos.
 

Na presença de uma perfuração do retículo ou rúmen por arames ou pregos, não ocorrendo morte por perfuração do coração (pouco frequente), o animal vai apresentar anorexia (diminuição da ingestão de alimento), acentuada queda na produção de leite, no caso das vacas de leite, uma dor abdominal subaguda e vai se apresentar muito relutante à movimentação e, quando anda, pode chegar a gemer.

A maioria dos animais prefere ficar de pé por longos períodos e deitam-se com muito cuidado, sendo frequente o arqueamento do dorso, juntamente com a tensão dos músculos abdominais. A defecação e micção provocam dor, o que faz com que os animais as façam poucas vezes e, quando as fazem, normalmente são acompanhadas de gemidos. A ruminação pode estar ausente e os movimentos do rúmen e retículo acentuadamente reduzidos e frequentemente ausentes. O rúmen pode parecer cheio devido à presença de timpanismo gasoso.

Na fase de peritonite local crónica, o apetite e a produção leiteira não retornam ao normal, mesmo após uma prolongada terapia com antibióticos, a condição corporal costuma ser má, as fezes estão reduzidas em quantidade e há um aumento nas partículas não digeridas.

Um dos principais procedimentos preventivos são as boas práticas na gestão de resíduos, como evitar sobras de arames ou pregos que possam ser ingeridos pelos bovinos, e a correta eliminação de outros resíduos, como cordões e sacos de plástico, por exemplo.

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Figura 3 - Exemplo de um íman para aplicação em bovinos para a prevenção da reticuloperitonite por corpos estranhos metálicos.

Um procedimento muito eficaz para lidar com a ingestão acidental de pregos e arames é o uso de ímanes próprios (fig.3) no retículo – são usados pequenos ímanes em forma de barra, com 7,5cm de comprimento e 1,0 – 2,5cm de diâmetro, com pontas arredondadas que se alojam no retículo, atraindo assim corpos estranhos metálicos que não penetram tão facilmente na parede reticular como quando estão livres. O uso destes ímanes de forma profilática nas explorações leiteiras pode reduzir a incidência da doença e as suas complicações em 90/98%.

A medida mais eficaz e económica é, sem dúvida, a prevenção. Mantenha as pastagens limpas e as boas práticas na gestão da sua exploração!

Nuno Timóteo
Médico Veterinário
Corpo de Inspeção Sanitária
Direção Regional de Agricultura

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